sábado, 28 de setembro de 2013

A BATA DE COLA


Nestes últimos anos o Flamenco vem passando por constantes renovações; principalmente depois que foi considerado em 16 de outubro de 2010 como Patrimônio Imaterial Cultural da Humanidade.

Os figurinos tem acompanhado esta revolução de transformações e se adaptado as tecnologias em prol da dança, mas que não pode deixar de existir e sumir a visão espanhola de suas raízes e, no caso da Bata de Cola (vestido com cauda) por seu elevado custo devido ao trabalhoso processo de montagem.


Muitos artistas da nova geração desconhecem a Bata de Cola. Mas uma geração de bailaores defende e pratica o uso desta peça de grande beleza cênica. Artistas como Inmaculada Ortega, Mercedez Ruiz, Eva Yerbabuena e gente tradicionalista como Merché Esmeralda ou mesmo Matilde Coral que, inclusive, já lançou um livro intitulado "Tratado de la Bata de Cola".


A Bata de Cola foi considerada por muitos anos como indumentária de uso exclusivo das mulheres, mas que vem sendo usada por nomes importantes e que não descaracteriza o lado masculino dos bailaores por estarem em uso deste traje.

O uso e manuseio da Bata de Cola requer dedicação e muito estudo, além de conhecimento dos palos flamencos para não acabar em cena como um elemento de "desfile" e usada de um lado ou para outro como se aquilo que se leva atrás esteja incomodando a dança.

Sua aparição é mencionada durante o séc. XVIII como uma parte traseira da roupa com ajuste amarrado como umas pregas e que dava o "vuelo" da cauda. Havia pequenos bolsos internos e por debaixo outra saia cheia de babados. Os tecidos eram os da época como a seda e em tons pastéis adornados por flores. No último terço do Séc. XIX as batas eram mais curtas que as de hoje.

Contam que a primeira Bata apareceu em Granada e que era de tecido percal branco e que era uma adaptação de uma roupa de uma princesa daquela época. Ainda como registro, dizem que a bailaora Rosário La Mejorana, mãe de Pastora Império, foi a primeira a usar uma Bata nos palcos em concorrência com outra bailaora da época, La Macarrona.


Pastora Império e Antonia Mercé popularizaram o uso da bata de Cola em todos os cafés cantantes e teatros do mundo em que levavam seus shows a partir do primeiro terço do Séc.XX. Eram batas muto pesadas e que sempre precisavam ser engomadas antes de serem usadas no palco.

E assim começa o uso da Bata de Cola entre as bailaoras daquela época. Cada uma com a sua, com seu estilo e sua modelagem.

Hoje não há restrições quanto ao uso da Bata de Cola nem tampouco especificação do palo Flamenco a ela atribuída. Qualquer um poderá fazer uso da Bata desde que conheça técnicas de manuseio. Até mesmo o material usado hoje varia de acordo com a necessidade de quem a usa em cena e independe de ter ou não forro, de ser ou não armada, tradicional ou moderna...

Ciganas ou não, a Bata de Cola se populariza graças aos bailaores de ontem, de hoje e as que virão...

Carmen Amaya, La Quica, Rosa Durán, Cristina Hoyos,Carmen Mora, Matilde Coral, Manuela Vargas, Manuela Carrasco, Mercedez Ruiz, María Juncal, Yolanda Heredia, Inmaculada Ortega, Concha Jareño e tantas outras que faria a lista muito extensa...

ROSA DURÁN


CRISTINA HOYOS


MANUELA VARGAS


MANUELA CARRASCO


Homens de bata...


MARIA JUNCAL


INMACULADA ORTEGA


MERCEDEZ RUIZ


PATRICIA GUERRERO


EVA YERBABUENA


YOLANDA HEREDIA


CONCHA JAREÑO





ARBÍTRIO: o direito da escolha


Todos passamos por momentos difíceis que englobam uma questão: A ESCOLHA.

Confundimos o tempo todo opinião com crítica e com escolha. Este processo delonga momentos em que as emoções atrapalham ou ajudam na decisão. Como fazer?

O ruim é que às vezes gente muito próxima se sente agredida, ofendida ou apontada sem sequer haver nenhuma atitude no ato escolhido e que lhe aponte.

Arbítrio é escolha... e as consequências boas ou ruins advinda da decisão.

Nem tudo o que é bom pra mim poderá ser bom pra você. E nem por isso estou praticando uma maldade. Estas verdades são personalizadas como escutei um dia falarem pra mim. E isso pode gerar inimizades ou mágoas... quase sempre sem fundamentos.

Aliás, são as formas de pensar e ver a vida que faz tudo ficar diferente no dia a dia de cada um de nós.

Amadurecer é saber lidar com as escolhas e seus resultados. Isto independe da idade física, mas das vivências adquiridas durante este decorrer de anos. E por quê não dizer de vidas, muitas vidas passadas?

Como fazer então?
Não ter medo da escolha porque ela será necessária de qualquer jeito. Mais cedo ou mais tarde.
Não culpar ninguém pela escolha que fez ou foi sugerido e/ou induzido a fazer.
Não se lamentar por ter errado. Faz parte do processo, pois errar ensina duas vezes mais, embora seja sofrido.

E então, como saber se deu certo?
Apenas colha os frutos da escolha. Toda árvore sempre dará bons e maus frutos. É só saber separar os frutos ruins. Toda árvore tem suas ervas daninhas e precisarão ser retiradas de tempo em tempo.
A escolha não está relacionada a credo, a raça, a sexo ou a situação financeira. Basta ser humano.

E aí, o que fazer?
Continuar a escolher... use seu LIVRE ARBÍTRIO.

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

SENTIR...



Pensando e vendo nestes quase 30 anos que me dedico estudando e ensinado Flamenco, fico imaginando como tem gente que faz "qualquer coisa" flamenca e nem sequer sabe o que fez. Todos os cantes tem sua essência e diz o que é pra se sentir... ou sentiu. São eles que determinam a expressão que usaremos ao bailar. E muitas vezes sugerem cores e figurinos...

De que adianta ultrapassar os limites de velocidade no taconeo (mesmo no compás), de ter tantos giros, tanto contorcionismo ou dançar como antigamente se não sabe o que se está cantando e, consequentemente, sentindo? Será que a emoção que gera uma Soleá é única? Então não seria o caso de todas as letras serem iguais? Claro que não! Ninguém tem solidão igual ou saudades de amor igual; mesmo quando a letra é a mesma...


Por que há anos LA CHINA diz..." tiene que escuchar el cante, tiene que bailar al oído, al cante!"... Pode ser até que não se saiba muitos movimentos, mas precisa sentir também a profundidade daquilo que é cantado. Não é só para perceber o compás e dar o cierre ou o remate.

"No me pasa nada, nada, nada!"... SARA LA MORA.

"Trabalhar técnicas de dança para servir melhor a EMOÇÃO"... SONIA CASTRIOTTO.

"No importa lo que hagan y si cómo lo hagan."... ADRIAN GÁLIA.

Isso me faz pensar em gente como o sr. Alberto Turina (in memorian) que nem sempre conseguia realizar suas coreografias como pensava. Era exigente, mas adaptava e respeitava ao seu corpo de baile.

Isso me faz lembrar a gente brasileira como Fabinho Rodriguez e Stefano Domit com tanta energia e personalidade, a Thereza Canário, a Ana Campoy, Robinson Gambarra e a tantos outros que conseguem colocar tudo isso junto quando dançam. Isso não quer dizer que gosto de seus estilos, mas preciso reconhecer o mérito deste trabalho. Ana Mazargão pra mim é a nossa María Pagés.

Ao cante de Helena de los Andes, doida e hiper ativa, mas totalmente Flamenca; a Ana Bayer que se solta ao cantar e a Diego Zarcón, bailaor que caiu dentro do cante... A tantos outros que aprenderam a lidar com as emoções Flamencas. "Cuando canto me sube en la boca el gusto de sangre!"... vocês fazem isso!

Isso me faz lembrar da magia que faz a guitarra da Mara Lúcia Ribeiro para qualquer dançarino e as notas mágicas que desperta o toque de Allan Harbas... Que falar do guitarrista brasileiro mais espanhol que temos, Fernando de La Rua?

O baile de Inma Ortega é regado de tudo um pouco... técnicas afinadas, filigranas coreográficas, roupas altamente atuais, modernas mas com um olhar no passado, e taconeo "limpio, musical y bonito". Antonio Canales é outro que respira e sua Flamenco. Dorme, sonha, tem pesadelo, acorda e vive flamenqueando! São tantos, mas vocês me passam agora na cabeça.

Então, gente flamenca, me desculpem, mas a emoção é a mola que impulsiona o Flamenco. As técnicas servem apenas para facilitar estas explosões internas, estas "afecções humanas", como diria uma amiga filósofa que admiro e respeito demais!!!! MARTA HERNANDEZ.


Lamento aqueles que acham que dão aula de Flamenco. É mais do que isso...
Lamento aqueles que acham que dançaram Flamenco. É mais do que isso...
Lamento aqueles que pensam que tocam. É mais do que isso...
Lamento aqueles que acham que sabem construir figurinos Flamencos. É mais do que isso..
Tenho que lamentar também quem acha que canta? é mais do que isso!

Não se deixem levar pelos excessos ou pela falta de conhecimentos seja em qual setor flamenco for. Muito menos achar que já tem o suficiente para ser professor ou "dono" do Flamenco. Ter registro profissional é uma coisa, dançar é outra, ensinar é outra e viver com a filosofia do Flamenco é outra...

Que eu saiba, a arte não se compra. Só as de loja, não é mesmo? Se nasce com ela e levamos quando nos vamos. O que fica é o legado deixado a poucos...


Como disse Camarón, só tem uma escola... TRANSMITIR.