segunda-feira, 21 de novembro de 2016

Cuspindo abelhas e chovendo vespas... mercado no ensino da dança

Hoje quero mesmo falar de forma a alertar as Escolas e Academias de dança onde a cadeira chefe é composta por diretores com formação erudita em dança assim como a dança principal e de maior valor.



Há anos trabalho com elas, melhor dizendo, trabalhei em muitas delas e algumas muito famosas aqui na capital do Rio de Janeiro. Renomadas em sua dança, sempre deram espaço às outras de matrizes étnicas. Na visão delas, até hoje não passamos de uma dança a caráter. Em outras pouquíssimas somos até reconhecidos como mais uma linguagem dentre tantas outras, porém sempre diminuidos, até quando há alguma divulgação externa de nosso trabalho. E eu ainda pegaria mais pesado... sem o devido mérito. 

Nestes mais de 30 anos, sempre caímos de paraquedas em seus diversos temas dos quais quase sempre sequer parece importar a verdadeira visão e valor que cada uma destas danças, as étnicas, têm. 

É notório que nos últimos 15/20 anos, muitas destas danças sumiram dos principais eventos internacionais por conta deste desrespeito criando seus respectivos campos de trabalho.

O desrespeito aumenta nos concursos quando todas as danças étnicas concorrem entre si, ou seja, categorias de estilos diferentes. Participei de alguns onde meus concorrentes eram da dança cigana, afro, folclore brasileiro e até mesmo dança do ventre.

É extremamente decepcionante e desestimulador estar em alguma destas academias com regência acadêmica e passar anos ali vendo que não se cresce, não se divulga e não dão um espaço mínimo que seja para que as danças étnicas apresentem aquilo que possuem de maior valor: a sua essência,  mesmo que folclórica,  e que está atualizada ou modernizada em seus países de origem.

Mas não posso deixar de mencionar o que vi no XXV Festival do Triângulo, MG, entre 9 e 15 de novembro de 2016. Primeira vez que deram espaço para uma companhia de flamenco para fazerem a abertura. E a grata satisfação de que foi a Soniquete, de Mariana Abreu de Campinas, que mostrou nosso potencial flamenco com nível internacional. E não dá pra deixar de mencionar que a produção simplesmente usou um intervalo para divulgar as necessidades do evento enquanto literalmente TIRARAM o linóleo durante a mostra para o número de flamenco do grupo da Veruska Kelly! Me encantei com o ato! Enquanto que vi e escutei em vários eventos país afora e apresentações de academias onde as danças ditas acadêmicas dominam dizem "não dá". Inteligência e respeito! Isso me alimenta esperanças! Realmente me fascinou!




Estou dando murro em ponta de faca?

Fica mais decepcionante quando se trata de locais ditos educadores! Como se pode ensinar os diversos estilos de um segmento se o espaço ofertado é sempre uma estilização de nossas danças? Já fiz inúmeros musicais infantis baseados nos contos da Disney, outros temas como Circo, Brasil 2000 e histórias onde danças como o Flamenco e as coirmãs jamais serviriam com sua natural essência. Apenas emprestam sua plasticidade para preencherem um tema dirigido principalmente para as danças acadêmicas como o ballet e o jazz.

Quantas vezes vesti a camisa durante alguns anos para ver se receberia o reconhecimento, não o financeiro? E quando ia cobrar para vestir a minha camisa, fui desprezado e estimulado indiretamente a procurar outro espaço porque ali os alunos estavam sumindo ou porque não havia procura para minha dança. Claro, só apresentei estilismos sem nunca sequer ter sido divulgado externamente! Poxa, nem mesmo uma propaganda avisando que estamos ali, ofertando uma opção nova...em cinco anos, eu que faço a propaganda? Pra ganhar a mesma coisa? Nem sequer, se eu conseguisse alunos, iria ganhar um prêmio por isso...parece obrigação nossa estar ali e sem que o entorno saiba da nossa existência ali (salvo os próprios alunos existentes), tenhamos que, quase por magia, atrair alunos novos. E ainda ouvir nas reuniões sobre o tema de fim de ano que nós, agora indiferente dos estilos, é que fazemos a cabeça do aluno para participarem e etc e tal. Ou seja, a gente veste sua camisa. Por qual razão nenhuma de vocês veste a nossa? Fica no ar...

Em raríssimas exceções estive dentro de um tema onde pude levar o flamenco com sua verdadeira cara. Imagino as coirmãs como devem ter sofrido com isso nestes locais!

Poucas foram as que uma ajuda de custo deram por reconhecer nosso profissionalismo, pois criamos a coreografia, ensaiamos horas extras, às vezes dançamos de graça para encher seus bolsos! Mais uma vez vestimos a sua camisa, não é mesmo? E nunca cobramos, pois esperávamos o reconhecimento de nossos esforços.

Como fui sócio uma vez, sei o que digo, pois sobra dinheiro sim!!!

Com esta infeliz e persistente distorção de nossas artes, muitas lutaram e abriram seus caminhos distantes das danças acadêmicas. Surgem escolas e academias onde sequer o ballet e o jazz aparecem no quadro de ofertas destes locais. Quando aparecem, estão no mesmo patamar que nos deram tradicionamente em seus campos, tapando buracos. Exatamente como fazem conosco.

Surgem vários eventos que já alcançam estatus internacional dentro de seus estilos. E fica o detalhe do exemplo pra quem acha que não valorizamos o que vivemos. Nossos moldes são espelhados nos grandes e tradicionais eventos criados pelas danças acadêmicas! De onde nós participávamos ativamente.

Será mesmo que não sabemos valorizar suas danças?

Será mesmo que recebemos o devido respeito que merecemos?

Ou apenas somos diminuidos por não termos a mesma escola que vocês e completamos seus orçamentos?

Os concursos poderiam ter em suas ofertas de inscrição e bancas, a devida divisão por estilos como fazem com as suas e nos ofertar a concorrência justa com gente igual a nós. Cada um no seu segmento.

Nestes mais de 30 anos eu nunca vi, repito em caixa alta, NUNCA VI um ballet clássico competir com uma dança moderna, um ballet contemporâneo competir com um jazz ou mesmo um ballet clássico de repertório competir com um neoclássico. Sempre concorreram entre si. Nunca com os outros estilos.

Sim, é este o valor e respeito que nos dão, infelizmente, até hoje. Posso até cutucar na ferida quando falo do Flamenco que hoje já é reconhecido como mais uma linguagem de dança no exterior e ainda recebeu o título de Patrimônio Imaterial Cultural da Humanidade pela Unesco em outubro de 2010. Mesmo assim, somos apenas uma dança espanhola aqui no Brasil por estas tradicionais academias e escolas de dança com matriz dita erudita. Ainda encontro muitas que nos querem de "vermelho e preto", tocando castanholas, sapateando e usando leques para as moças e os rapazes travestidos de toureiros ou de pseudo-espanhóis, tipo piratas.

Por esta razão, muitos criaram seus caminhos independentes das tradicionais escolas de ballet, as quais me rendo e apoio por conseguir se desligarem deste comércio pretencioso.

Será mesmo que o único valor que temos é o de preencher as horas vagas de suas grades e de contabilizar mais uma taxa paga para sua apresentação de fim de ano dentro do seu tema dirigido?

Sugiro repensarem o que vocês dizem ser... um estabelecimento de "ensino de danças". No plural mesmo! Seja ele rotatório como uma Academia de Dança ou mesmo na fachada do título Escola de Dança. Ou mais discreto quando se chamam Estudio de Danças. E conseguem piorar quando se levam como uma Cia. de Dança em que o estatus de uma companhia se espelha na situação perene e regular de um grupo de profissionais que trabalham com o dito conceito da palavra Companhia dentro de uma verdadeira ótica de Dança Profissional, seja ela qual for, e usam os alunos para iluminar seus letreiros.

Mais uma vez fica minha dolorosa crítica. E talvez pela falta de coragem de dialogar que meus colegas destes diversos estilos de dança que temos, preferiram apenas sair no silêncio e montarem seus estudios, suas salas, suas escolas e suas academias para desenvolverem aquilo que descobrimos quando fomos estudar nossas danças. Não somos apenas uma dança a caráter e muito menos somos apenas danças estilizadas!

Poderia aprofundar mais ainda se adentrasse nos programas televisivos que nos entretêm com os belos concursos, cheios de belas figuras e em quase sua totalidade estilizando nosso trabalho. Isso não é ruim, mas recebemos muita gente querendo aprender a dançar daquele jeito, com aquela roupa e sair bailando profissionalmente num tempo impossível! Poderiam ao menos, em cada estilo que apresentam nos concursos televisivos, ter alguém daquele estilo para comentar e dar a visão técnica de quem vive dela, mesmo que ainda seja por pura visão artística. Que não me tomem como carrasco desta fala! Mas quem já viu uma dançarina indiana julgando um tango argentino? A pensar...

Talvez eu seja tolo em permanecer acreditando que um dia estas danças de cunho acadêmico nos reconheçam como parceiros e não como estilos menores que o seu ou concorrentes no mercado de trabalho. Há espaço para todos!

Vai me doer a publicação desta matéria, mas não deixarei passar em branco como faz a maioria hoje. Engasguei anos com isso tentando conversar, dialogar e tentando um espaço entre eles que ofertam sim, mas não com o respeito que merecemos. Muitas vezes fui posto de molho e durante anos não fui convidado ou fui ignorado pelos eventos e pelas bancas de concursos como jurado mesmo, pois me recusei a participar como concorrente diante da banca nada especializada em meu setor.

Ainda fui algumas vezes questionado, por bancas nada especializadas, sobre o que achei do trabalho de flamenco antes deles votarem. Apenas respondi ter minha visão, mas a responsabilidade do voto e do contrato era deles e não minha. Apenas fui convidado a assistir e não a opinar conforme o contrato.

Isso porque fui conversar com a direção dos eventos para sugerir gente especializada em cada setor e concorrência dentro de cada estilo! E escutar a insanidade de que os profissionais eruditos tinham uma visão generalizada e podiam perfeitamente fazer os julgamentos. Ou pior, só tinham dinheiro para eles! Má divisão dos recursos é o que fazem, mesmo que pequenos.

Muitos dizem que sou recalcado porque não tenho minha escola e meu festival. Já tive uma escola em sociedade e ali vi claramente isso que declaro abertamente agora. Eventualmente, participo sim de eventos estritamente flamencos.

Eles me deram estes adjetivos os quais não os reconheço em meu caminho. Apenas escolhi ser instrutor, coreógrafo, dançarino e figurinista de flamenco e danças afins.

Será mesmo que sou recalcado e invejoso? Sou autônomo e tenho viajado como um nômade  por estes longos anos em diversos estabelecimentos de ensino da dança. Sei bem como funciona o lado comercial de um estabelecimento e quais são as exigências que qualquer dança tem para ser ensinada.

Com certeza não agredi meu amado Flamenco. E dou total apoio aos meus coirmãos étnicos que enfrentaram barreiras e hoje tem suas escolas de suas danças. Eu que escolhi não ter a minha...

Lancei minha sentença no mercado do ensino da dança.


Salvo raríssimas exceções, o sucesso das danças em seu espaço de aprendizado é fadado e proporcional ao valor e respeito que seus diretores dão à elas, tanto na divulgação externa e montagem de turmas quanto aos profissionais que escolhem para ministraem aulas dentro de seu espaço. E digo mais... as salas de aulas só ficam cheias de acordo com a Lei da Oferta e da Procura, necessariamente nesta proporção e ordem. Não há procura se a oferta não é externalizada ou inexistente. Este é um, senão o maior, erro cometido pela maioria dos estabelecimentos de ensino de dança que contam apenas com a procura interna. Ainda mais quando os descontos sempre recaem nas segundas modalidades as quais somos qualificados e repartidos, quando fazem, com os profissionais sem comunicá-los no ato do acordo.  Não ganhamos a diferença nem das mensalidades pagas com multas por atraso! Já é complicado lidar com alguns colegas com DRT que infelizmente nunca deveriam ter este registro por terem currículos duvidosos. E só lastimo quando a sessão de registro passa por algumas fraudes praticamente indetectáveis.

Algumas vezes recebi denúncias porque trabalhei dentro do sindicato, mas os denunciantes nunca me forneceram documentos comprovatórios das fraudes ou mesmo quiseram dar a cara a tapas, nem mesmo seu testemunho E eu que tinha que dar? Detalhe, de gente conhecida no mercado!

Quase todos os profissionais praticam a política da boa ética. Dão um sorriso, lastimam e seguem seus caminhos se afastando.

Depois desta matéria, quero ver quem tem a coragem de me chamar para trabalhar ou a qualquer colega das danças coirmãs! Muitos diretores se doerão na tamanha proporção que sentimos durante longos anos.

Aliás, esta matéria foi escrita em fins de 2016 e publicá-la naquela época só me diriam que sou pessimista ou inconformado porque o mercado "é assim", do jeito que eles acham que somos.

Guardei para agora, início de 2017 para pensarem nas modalidades de suas academias, estúdios e escola de danças. Publicado hoje, dia 12 de Janeiro de 2017.

Aqueles que não se enquadram, não tem o que reclamar aqui... ou apoiam ou ficam em silêncio. Será?

Cuspi abelhas...
Choverão vespas?

O Desabafo de minha mãe

Escrito em 21 NOV 2015

Palavras de Sonia Maria de Lima Samel
  
A minha mãe  teve 20 filhos onde 15 nasceram em casa e os outros 5 que nasceram no hospital,  morreram. O último  deles, minha mãe  estava no sétimo  mês quando levou um tombo e foi parar no hospital por conta das dores. Foi tratada apenas com compressas quentes durante uma semana, pois os médicos  diziam que ela não  estava grávida. Preferiu ir pra casa e chamou a parteira que retirou a criança  aos pedaços.
Sou nordestina e passei muita fome e cheguei a comer cascas de frutas do lixo.
Aos 8 anos fui trabalhar em casa de família. As patroas diziam ao meu pai que me colocariam numa escola. Era o que mais queria, mas não  acontecia e então  eu fugia.
Vi minha mãe  chorar muitas vezes porque não  tinha nada para dar de comer aos filhos. Quando chovia,  brotava na terra uma planta chamada "bredo" e outra "berduega" que eram comidas de gado. Mas minha mãe  catava e dava para a gente comer.
Por quê  falo isso? Por causa destes políticos  que vivem as nossas custas. Eles não  sabem o que é  isso. Em vez de roubarem nosso dinheiro, por quê  não  reduzem seus salários? Tem vagabundos que entram na política  porque é fácil  roubar e enganar o povo. Darei um exemplo: estive no hospital há  alguns anos com um de meus filhos por conta de fortes dores que ele sentia e precisou ficar em observação. O médico  que o internou foi embora. Outra senhora estava também  lá  com seu filho e pediu que o médico dele desse uma olhada no meu filho. Prometeu fazê -lo e só  apareceu no outro dia. Este médico  era candidato a deputado e cobrei dele o que havia me prometido. Me respondeu que candidato bom é  aquele que promete e não  cumpre. Então respondi "foi muito bom o senhor me dizer isso". Ao sair do hospital fiz campanha contra ele nas lojas. Contei como fui tratada e de sua resposta. Não  ganhou nenhuma eleição. Vagabundo não  é  quem não  trabalha, mas é  aquele que leva uma vida boa sem querer saber se alguém  precisa dele ou não. Este sujeito safado é  médico!
DESABAFO parte II
Já se ouviu muito por aí  que "aqui se faz e aqui se paga". Sempre ouvi falar que somos todos iguais, mas ninguém  nunca leva a sério.  Mas tenho visto  que não  importa o que pensem porque se paga mesmo. Custe o tempo que custar, sempre se paga. Só  debaixo da terra somos todos  iguais. Mesmo tendo todo o dinheiro do mundo, para onde se vai nada poderá  comprar. Seu dinheiro fica aqui entre os vivos!
Na última  casa que trabalhei a patroa falou que viria uma pessoa jantar e que eu não  deveria dirigir a palavra a ele para nada. Ele não  permitiria que uma pessoa "inferior" se dirigisse a ele. Eu trabalhava nessa casa com meu filho que nem sabia falar. O sujeito perguntava a meu filho qual era o nome dele... Por várias vezes! Então  respondi. O cara me fulminou com seu olhar.
Já  tinha minha casa. Depois de 3 anos trabalhando, liguei para a patroa e disse sobre minha conquista. Fui elogiada, mas recebi um comentário  terrível  dela. "Você  acha que um universitário vai querer assumir que é  pai de uma criança  filho de doméstica?"
Sobre o tal sujeito que não falava com pobres, soube que morreu no hospital público  exatamente onde fui operada. Por isso digo que "em baixo da terra somos todos iguais".
Caráter  e respeito são  formados em casa. Na escola se aprende cultura, ler e escrever. E isso aprendi sozinha com vontade. Perto de minha casa tinha uma escola. Todos os dias eu subia numa pedra que tinha no muro e pensava "um dia vou estudar  nessa escola". Só  fiquei 2 meses, mas foi o suficiente pra desenvolver minha vontade.
Sempre ouvi falar que o trabalho dignifica o homem. Conheço  gente que não  trabalha porque já  nasceram ricos e muitos nem herdeiros tem. Onde fica a dignidade destes homens? Por quê  não  trabalham pra tirar esse país  do fundo do poço?
Hoje tenho 75 anos e fui vítima  de 2 cânceres  que consegui vencer. Tenho sequelas advindas deles, mas minha vontade de viver e vencer sempre foram minha meta.  Não é  porque sou  humilde e pobre que me entregarei e serei derrotada pelas coisas ruins que a vida  e estas pessoas ruins fazem com gente como eu.
Sou honesta  e digna sim! Orgulhosa por ser batalhadora e ter dado caráter, honra e dignidade aos meus filhos da maneira que pude e como nunca havia recebido. Apenas aprendi a ser assim seguindo os passos de minha mãe,  Marcolina de Lima e Silva que, sem nada na vida, deu seu melhor para todos os filhos. Ela não  se prostituiu, não  deu e nem jogou nenhum  filho no lixo e sequer tive irmãos  bandidos, apesar da vida sofrida de nós  nordestinos.

terça-feira, 15 de novembro de 2016

Um Carioca no XXV Festival do Triângulo

Este ano me convidaram  para participar do Festival do Triângulo.  Há muitos anos estive nele como concorrente e havia observado situações que foram comuns a outros festivais que participei.

Desta vez fui como profissional ministrar uma Oficina de Zambra para um público específico e ainda resistente por conta do tema controverso de sua origem histórica.

Conheci alguns nomes da história da dança no país pessoalmente, suas posturas e seus pensamentos (os que pude perceber e os que foram mostrados) sobre a cena atual em Uberlândia e de como ocorre em outros locais no país.

Óbvio que aproveitei para ver a mostra amadora adulta nos dias 13 e 14. Quase em sua totalidade os grupos são da região da cidade salvo 3 grupos, se não me engano, que são de cidades próximas.

Problemas à parte com o retorno da direção ao grupo original do Festival depois de cinco anos, não sei dizer se é o mercado da região, o desinteresse ou desconhecimento de outras linguagens de dança das quais senti falta neste festival.

De um modo geral, notei que em quase sua totalidade o que me preocupa não são os queridos alunos que deram sua alma para estar em cena, mas sim a capacidade de ensinar de seus professores, a falta de conhecimentos didáticos para ministrar aulas, para coreografar e para compor um figurino. Este último parece perpetuar pelos anos que estou na cena da dança.

A dança possui algo mais que aquilo que se ensina dentro das salas de aula. O figurino pode ajudar ou destruir uma obra assim como a iluminação. Sobre figurino, ainda se cometem os mesmos erros...uma costureira, com todo o respeito que merece a profissão, não é estilista ou figurinista. Já fiz menção sobre isso em outra matéria no blog. Se deve conhecer, ao menos, tudo que envolve uma cena de dança seja ele qual for o espaço. Falo daqueles que não aparecem: os contra-regras, iluminadores, sonoplastas e etc. Sem eles também não existimos.

Um coreógrafo não precisa saber costurar ou mesmo sequer conhecer tecidos, mas seria responsável entregar sua idéia ao arquiteto da roupa, aquele que a bola, cria e passa ao real o lúdico da roupagem de sua idéia que é o figurinista,  que a conceberá de acordo com os parâmetros fornecidos para depois da aprovação do coreógrafo encaminhar à produção inspecionada do mesmo.

Me preocupa muito que estamos tendo uma onda de duvidosos profissionais os quais me leva a pensar na qualidade das formações incompletas ou autodidatas dos mesmos que, em vários segmentos, costumam se acharem aptos a professar depois de algum tempo cursando um curso seja aonde for o espaço.

Falta método, falta técnica específica, falta conhecimento histórico e a razão da existência de sua escolhida dança e falta, acima de tudo, a consciência ao lidar com o corpo alheio e com a postura política diante da cena trabalhista. Isso favorece aos lobos em pele de cordeiro dos donos de "escolas" de dança que nem são reconhecidas pela Secretaria de Cultura de seu município com os méritos que leva seu nome fantasia. E favorece o comércio grosseiro das academias que se preocupam apenas com o capital de giro que estes "profissionais" produzidos por um photoshop oferecem na duvidosa qualidade de seu produto.

De tudo que me fez pensar, está difícil encontrar maduras ou iniciantes cabeças pensantes em dança como um todo, como coletivo artístico desta arte e não aquele coletivo pessoal da vaidade e do ego imperante nos últimos anos nos diversos segmentos que tem a dança.

E vou adotar uma frase do resumo da Roda de Conversa com o tema do festival ao qual amei e me inspirei para continuar com a dança e com o ensino do pensamento e da reflexão dela durante minhas aulas.

"Precisamos pensar na contemporaneidade da dança."

A luta por melhorias na qualidade profissional depende de suporte legal também. Vemos, em ciclos irregulares de nossa história, talentosos brasileiros indo mundo afora percorrer de forma digna e responsável o verdadeiro caminho de um profissional de dança. Detalhe que não desconsidero as intempéries naturais de qualquer profissão, mas se no óbvio não houver o devido respeito entre as diversas linguagens que a dança tem, de nada adiantará pensar no todo. Esta é a minha ótica.

Como carioca em Uberlândia, apenas vi que o problema não é somente em meu estado. Está disseminado pelo vasto, porém ironicamente restrito, caminhos da dança em nosso país.

Só tenho a agradecer a Secretaria de Cultura, a Prefeitura de Uberlândia e a todas as pessoas que compõem a organização por me proporcionarem tamanha honra como profissional, pela confiança indicada por uma colega de trabalho e também pesquisadora, Veruska-Kelly, e por viver algo novo que já havia enterrado em meu ser... a esperança no futuro da dança em meu país. Reconheço minha falha ao não memorizar os nomes de todos com quem estive mas poderemos nos falar depois que o evento dispuzer nossos contatos e, por esta razão, generalizo minhas palavras.

Espero que entendam minhas críticas que não são para desarmonizar, mas despertar e construir juntos!
Afinal de contas ter mais de 30 anos em dança não é ter apenas 30 dias... e tenho muitas vivências!

Espero poder voltar futuramente e também encontrar em outros lugares gente assim, que verdadeiramente AMA a dança como um todo.

sábado, 12 de novembro de 2016

Tamanha (In) significância da Vida

Não consigo conceber tamanho egoísmo, tamanho ódio e guerras de vaidades ou mesmo disputas mais exarcebadas pelo poder sejam eles quais forem.



Toda vez que viajo de avião, olho pela janela e percebo como cada ser humano é uma diminuta célula neste imenso território planetário.

Como podem brigar por grãos de areia, por pequenas pedras e por gotas d'água que parecem nem existir diante desta imensidão toda?

Que objetivo tão mesquinho e tosco!

E ao olhar para o entorno do avião, seu externo espaço disponível é nele que eu queria estar...voando, planando, livre destas mundanas emoções que sou obrigado a conviver aqui embaixo.

Então todas as razões do mundo para ser feliz com o que tiver valem a pena!

Não consigo conceber em minha cabeça que brigam por dinheiro, por confortos exagerados, ou sei lá o quê que justifique tais aberrações emocionais.

Cada vez que descubro que conheço pouco da vida e de minha diminuta, mas imprescindível, vida material, vejo e compreendo o que já passei um dia com essa visão tão mesquinha que os outros tem sobre a vida, sobre a matéria e sobre poderes e outras coisas mais em muitas vidas passadas.

É, apesar de sermos insignificantes diante da imensa terra onde vivemos, somos todos, sem nenhuma exceção, significantes para o infinito e inconcebível sentido da vida com a ótica da maioria.

Filosofias à parte, praticar as máximas do caráter em seu aspecto positivo é a única e melhor forma de ser feliz aqui embaixo.

Respeitar as diferenças porque são necessárias, mas não se deixar macular por isso.

Nada é tão gratificante quanto se sentir assim e ver que o que incomoda são apenas as necessidades da vida material e capitalista.

Sinto saudades de um quê que não sei definir, não sei dizer.

Mas aqui embaixo encontro amores perdidos entre vivências artísticas e as maravilhas da natureza, melhor, que a natureza nos proporciona e muitos destroem.

Esta é, talvez, a única vontade que dá pra ser mais feliz...compartilhar o amor.

Apenas pensando naquilo que não é costume pensar e que raramente ensinam.

A vida...