terça-feira, 19 de dezembro de 2017

Sobre Danças Ciganas... meu PONTO FINAL.

Alerto que não sou especialista deste setor. Apenas mero admirador da cultura cigana como um todo pela grande interferência na Arte Flamenca e que me fez descobrir um vasto universo de manifestações diferentes as quais gostaria de apenas sobressaltar algumas aqui.

Desde que fui investigar as diversas matrizes do Flamenco, a que mais me chamou a atenção foi a da cultura cigana. Na verdade, a cultura deste povo em muito tem interferências dentro do Flamenco. Afinal de contas, é com este povo que se relata as primeiras manifestações históricas do Flamenco, embora não seja delegado a eles a "invenção" do Flamenco. Já escrevi artigos sobre isso neste blog.

É um povo muito singular e colorido e sua história e trajetória pelo mundo é facilmente encontrado em várias fontes principalmente fora do país ou em outras línguas. Livros de autores idôneos, sites feitos por especialistas, como historiadores, antropólogos e estudantes, que merecem respeito por usarem da razão para traçar uma possível história segundo os poucos dados e relatos "científicos" deste povo e que condizem com o comportamento deles naquilo que se tem acesso ou se pode divulgar em respeito a esta sociedade um tanto velada.

Aqui no Brasil, o boom da dança apareceu depois da novela Explode Coração da autora famosa Gloria Perez que, mesmo com tamanha produção global e colorido característico deste povo, conseguiu ajudar na popularização da existência deles, mas infelizmente com distorcida razão histórica através de sua fictícia novela; ainda que aleguem estar baseada em alguma história real. Ainda assim, não é este o fato que abordo. Mas a profusão distorcida de sua cultura pelos atuais artistas da dança e, às vezes, por alguns músicos, incluindo alguns ciganos e, como bem disse um amigo cigano, também os "esquisotéricos" (esquisitos e esotéricos). E esta gente tem misturado gente de toda espécie oportunista na divulgação com erros de conhecimentos. Também já abordei este tema em alguns artigos neste blog. Também tenho uma amiga escritora que até publicou um artigo numa revista francesa já mencionado aqui neste blog.

Ao estudar a cultura (nunca me aprofundei nas danças), percebi que, em cada país, sua matriz comportamental se prevalece embora, por questões de sobrevivência em cada local, este povo se adapte aos costumes locais facilmente observados em suas vestes, diversas línguas (dialetos da língua cigana), religião, culinária e arte de todos os tipos.

Aqui no Brasil, infelizmente se utilizam do jargão "dança cigana artística" para justificarem suas performances inspiradas neste povo; o que nem é ruim se levarmos em consideração a ausência da consciência de sua história e comportamento; o que também não é isso que acontece nesta dança. Mas para se libertarem do compromisso com uma proximidade mais fiel, suponho.

Ainda assim, vi em muitos locais, que ensinam a dança deles, como absolutas e sempre com o uso do que chamo de "bate saia" ou, como ouvi de alguns ciganos amigos dizerem, o "sacode poeira" para definir o frenético sacudir da saia das dançarinas em toda e qualquer dança não respeitando a origem do país ao qual a expressão dita artística quer mencionar.

Não basta somente saber qual a roupa daquele subgrupo se não sabe o que dizem suas músicas cantadas para entender, às vezes, a expressão facial e corpórea daquilo que fazem e o característico comportamento daquele grupo ali vivente. Vale lembrar que, quase todas as danças expostas ao povo não cigano ("gadje" ou "payo", duas das palavras mais usadas por eles para o não cigano) nunca tiveram total fidelidade daquilo que fazem em seus lares haja vista que, o velo cultural é a única forma de preservarem sua cultura. Estas danças expostas ao nosso povo são única e exclusivamente para angariar fundos na preservação de suas famílias. Trocando em miúdos, um de seus "ganha pão" para alimentar os custos da família. Ainda assim, o que fazem não fogem de sua cultura.

É muito bonito que queiramos também fazer uso desta arte como eles mesmos fazem, mas é também muito feio usar de achismos para justificarem seus atos errôneos nas danças, usar de segmentos de religiões espíritas como fontes idôneas de suas afirmações (imagine que eles são plurais religiosamente falando por conta dos países que passam!). E pior ainda, não dar a devida atenção a uma causa social que é real pela existência deste povo em nosso cotidiano, mesmo que a visibilidade que eles têm esteja ligada diretamente a minoria, que é nômade. São questões sociais que precisam de uma atenção sim!

Nunca vi nestes anos todos, algum interesse, deste setor da dança, realmente voltado para esse povo no caso de ajudar a acabar com preconceitos, aumentar o acesso a saúde e a escola ou mesmo oferecer, ao menos, condições de trabalho, ainda que do jeito deles, para comprarem suas necessidades para a vida. Usam artifícios de coleta de alguns gêneros alimentícios para distribuírem em algum acampamento (o que acontece em alguns casos), mas que vi alguns estes "anfitriões" fazerem uso para próprio sustento tirando uma parcela para si. Também vi causas sociais boas e importantes, mas em nada na direção desta etnia que realmente só é lembrada como um segmento religioso (erro terrível isso) ou como expressão artística. Raros são os trabalhos reconhecidamente voltados para a ajuda e poucos ou quase nenhum se concretizou.

Em resumo, por um simples detalhe que observo no vasto campo de profissionais desta dança, principalmente usando a saia, dá pra saber o quanto estão fiéis a esta cultura. Seja no reconhecimento da causa social ou na causa dita artística. Dos homens, se não são travestidos de piratas, são caubóis numa alusão ao calon existente aqui no Brasil... como se todo calon existente no mundo se vestisse desta única forma e toda veste pirata remetesse aos outros ciganos masculinos no mundo. E isso tudo piora quando alguns ciganos apoiam esta forma de mostrarem sua cultura.

Fica aqui uma reflexão cultural que vendem país afora sobre esta arte e seu respectivo povo representante. Por isso me afastei das distorções culturais artísticas, mas não dos poucos ciganos que tenho acesso e não se misturam com essa gente.

E declaro ser apaixonado por esta cultura. Como acessei estas informações? Estudando e refletindo...

Por isso que, muitas vezes o silêncio deles dói mais do que manifestos em defesa própria. Parece-me que, quanto mais errarem em sua cultura, mais estarão protegidos e distantes e menos saberemos como lidar com eles. Por isso se afastam... e continuam na estrada sejam sedentários, semi-nômades ou nômades (os mais visíveis dos invisíveis entre nós).

Se querem ajudar na causa social, se esclareçam para não cometerem falhas que possam complicar o convívio e a coexistência, além de aumentarem o preconceito cultural que herdamos de nossos antepassados.

Se querem admirar sua arte na dança, se instruam sobre seu comportamento e verão, mesmo que desconheçam a dança de cada país por onde andam que, o que é vendido foge daquilo que poderíamos mesmo chamar de dança cigana, mesmo que leve o adjetivo de artística.


quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

Emprestando um grito...

Enquanto muitos se travestem e fingem ser ciganos país afora e uns tantos que o são de verdade e se aproveitam desta ocasião como oportunistas, em várias partes do mundo esta etnia ainda é perseguida mesmo que não sejam nenhum tipo de ameaça a não ser por serem literalmente livres. Ocorre aqui também bem perto...

Recebo de uma amiga romi (cigana) de Volta Redonda, RJ, o seguinte artigo no jornal A Voz da Cidade datado de 02/12/2017... (vale lembrar que aquela região incluindo Barra Mansa e Resende é rota migratória de ciganos)


O fato é a ignorância tanto da cultura como as vistas cegas para o que acontece ali. As calins (ciganas descendentes dos ciganos portugueses que aqui estão praticamente desde a transferência da coroa para cá) não mendigavam e nem exploravam seus filhos conforme denúncia feita, pois trabalhavam vendendo panos de prato!

Segundo bom senso, isto não indica nenhum ato exploratório de seus filhos e sequer fere o Estatuto do Menor conforme relata o representante do Ministério Público local.

Pergunta fica no ar: por qual razão vemos em todas as cidades crianças gadjes (não ciganas) trabalhando nas ruas vendendo balas nos sinais (e às vezes até com seus pais por perto) e nunca vemos as mesmas medidas tomadas sobre suas tutelas?

O desconhecimento da cultura cigana, da lei que o permite exercer sua etnia em território nacional e o descaso mascarado contra a etnia naquela região faz a gente pensar como deveríamos agir para ajudar.

Seriam eles diferentes de outros por serem de outra etnia?

Em meio a momentos de puro preconceito sob os olhos da intolerância atual em diversos segmentos, deveríamos rever os conceitos que carregamos...ou a falta deles.

Ainda menciono quantas vezes ouvi de pessoas estudiosas e ligadas a este povo que sua história sequer passa em nosso registro histórico se lembrarmos de que eles participaram da construção de nossa história e estão aqui desde o século XVI.

Por esta e tantas outras razões tenho minhas diferenças com pessoas que brincam de serem ciganas, que usufruem ainda que mal e porcamente da cultura para terem seu "ganha pão" artístico ou místico, de alguns poucos mal caráter infelizmente presentes dentro da etnia e que sequer movem uma palha para ajudar seu semelhante. Quando muito, com algum cargo de alguma ONG se postando como representante desta minoria étnica e ainda conseguindo algum dinheiro para si diante dos maiorais em Brasília, mas não para aplicar na causa dos ciganos nômades e semi nômades espalhados pelo país os quais supostamente dizem representar.

Aqui apenas empresto meu espaço no blog para dar, ainda que apenas escrito por mim mesmo e em prol dos amigos ciganos, um grito sobre o assunto e pedir  que tenham um olhar mais seguro sobre a etnia antes de tomarem qualquer atitude insana. Concordarei se houverem ciganos que sejam infratores das leis de nosso país e que devem ser julgados como qualquer cidadão pelas leis comuns a todos.

Não há nada melhor que os devidos Ministérios e Secretarias Sociais, além da própria população local, se atenham da lei que os libera exercerem sua etnia em nosso país e verem se as referidas denúncias não são alvo de puro preconceito, o que é crime previsto em lei.

Pronto, gritei!
Desta vez com uma situação recente, pois de tantas outras já falei aqui e com baixíssimos resultados positivos.

Espero com este grito fazer com que aqueles que lêem meus artigos aqui, que (re)pensem sobre nossa pluralidade étnica e as respeitem como são.