quarta-feira, 24 de junho de 2015

Jóias Raras brasileiras

Sempre que me perguntam de minha formação, enveredam pela pergunta básica a quase todos que ensinam dança: "Você fez ballet clássico? É que você tem o porte e a suas linhas estão muito próximas de quem estudou ballet..."

Não dá pra me ver ensinando Flamenco sem mencionar as escolas e interferências que tive nestes anos todos. Então optei por lembrar quem foram estas pessoas e como elas interferiram na modelagem de meu trabalho.

Sonia Castrioto
Começo pela primeira e já mencionada diversas vezes em outras matérias em meu blog: Sonia Castrioto. Dela poucos se lembram embora tenha sido clamada como uma das maiores dançarinas de Flamenco nos idos anos 80/90. Poderão encontrar mais dela aqui em matérias onde falo de meu currículo, de minha história ligada ao Flamenco e de como Sonia é importante sim.

Mabel e Alberto
Da mesma forma deixarei à parte o casal Mabel Martín e Alberto Turina (ambos in memoriam), pois já foram mencionados em outras matérias aqui no blog. Eles foram o divisor de águas no quesito escolas de danças espanholas aqui no Rio de Janeiro.

Hayát, de vestido azul, e eu
Em paralelo por conta de minhas pesquisas, encontrei Hayát. Uma dançarina cigana a quem devo demais as primeiras e esclarecedoras informações sobre algumas danças ciganas, sobre a cultura e seus tabus. Uma mulher singular numa época em que poucas pessoas e mulheres conheciam e ensinavam a dança cigana. Recém chegada ao Rio de Janeiro, Hayát ministrava aulas na mesma academia que Sonia Castrioto, em Ipanema. Foi com ela que viajei para alguns lugares, frequentei sua casa e conheci o que poucos conhecem sobre os ciganos: cultura e tabus.

Helfany Peçanha
Ao começar a ensinar, não sabia por onde ir. Bati então na porta do Studio Parizzi e lá comecei a dar aulas sob a autorização de sua dona, sra. Adalice Parizzi (in memoriam) que, com seus tantos anos em Educação Física, junto com os filhos abriu um estúdio que foi famoso em Niterói. Neste período, precisei mesmo adentrar uma escola de ballet e a mais renomada na época era Helfany Peçanha (in memoriam) a quem tive o prazer de conviver. Era uma mulher um tanto quanto dura, mas uma mãe para suas alunas e bailarinas. Com ela pude aprender como igualar o nível dentro de uma turma, como lidar com as intempéries de pais e alunos e como observar e tirar "leite de pedra" com os aprendizes. Às vezes geniosa, Helfany apenas defendia sua escola e seu jeito especial de dar aulas. Agradeço a ela pelos papos longos em seu escritório, por me respeitar como profissional e, além de tudo, escrever uma carta de recomendação para o Sindicato falando de minhas qualidades profissionais. 

Através de Helfany, que muito me aconselhava a ter um registro profissional haja vista que não fiz o curso superior de dança, e que fosse por "notório saber", com uma carta fui atrás do Sindicato. Consegui meu DRT, o registro, mas não me filiei ao Sindicato dos Profissionais da Dança na época.

Nestes caminhos fluminenses, conheci muita gente importante da dança da época. A sra. Juliana Yanakiewa (in memoriam) era dura! Talvez por sua história triste no início, por ser russa e tão jovem ter sido obrigada a ficar no Brasil e conviver com as diferenças. D. Juliana, como muitos a chamavam, costuma ser uma flor quando o que via lhe agradava, mas virava uma fera quando o oposto ocorria. Trabalhei para D. Juliana ainda antes dela partir. Minha convivência com ela me fez refletir sobre as qualidades de um profissional em dança e a disciplina que se deveria exigir dos aprendizes. Algumas vezes tínhamos dificuldades de compreender um ao outro, mas foi com ela que ficou o registro de que "todos devem aprender o mesmo conteúdo e cada um superar suas dificuldades para vencê-lo".

Renée Simon
Andando nas academias de Niterói, conheci Renée Simon (in memoriam), fundadora da ESBA, Escola Brasileira de Artes. Renée era calma e muito pacífica. Sempre desejando que todos os seus alunos se tornassem grandes e exímios bailarinos. Com Renée, a paz, a calma, o diálogo aberto e transparente, a franqueza, o amor e o respeito nos pensamentos divergentes. Renée sempre era um bom papo para se ter, inclusive, sobre cultura de um modo geral. Ela tinha a capacidade de se expressar sobre tudo o que eu tinha dúvida e conhecia. Uma cultura em pessoa que sempre tentou me conquistar para o ballet clássico. Seu aconselhamento sobre "consciência corporal" é o que mais me impressionou em suas explanações. "Ricardo, um bailarino precisa dominar seu corpo, saber de sua capacidade e se quiser romper barreiras, deve se esforçar mais e se entregar ao máximo." Vendo algumas de suas aulas, pude descobrir o que era "persistência". Ela me ensinou isso e não abandonar a minha.

Simone Falcão
Sempre percorrendo as estradas da vida, também conheci Simone Falcão. Uma bailarina que, com seu talento e "olhos de lobo", conseguia enxergar talentos mil. Muita gente carente, de situação difícil, ou com situação complicada para acessar a dança e coisas assim. Simone tem sua escola e é responsável por grandes ballets também em Niterói. Apaixonada por Maria Bethânia, Simone sempre montou shows com sua companhia de dança onde tive o prazer de coreografar um número. Eu sequer imaginava que poderia fazer o que muitos acham ser novidade nos dias de hoje: o Flamenco como uma forma de expressão além de seu folclore espanhol. Foi um desafio pra mim. Por causa disso, ela me estimulou a cursar dança contemporânea. A experiência não foi muito longa, mas o registro de possibilidades na dança apenas me abriu o horizonte para o mundo das experiências. Simone me deixou o registro da "confiança no seu parceiro ou no seu grupo", de como o "respeito e a cumplicidade" é fundamental para que um grupo funcione; mesmo sabendo que a palavra final tem um dono. "Possibilidades"... talvez este seja o registro e a associação a "confiança" no seu parceiro de dança. Não é só isso. Simone me mostrou que todas as danças precisam de formatação para ensinar e graduar para a consciência dela.

Arabel Issa
Como um cigano que não tem morada fixa, eu experimentava todas as portas que se abriam pra mim. Não dá pra esquecer a Academia Formatto e sua diretora, Arabel Issa. Lá fui eu dar aulas de dança Flamenca. Sempre havia necessidade de explicar a todas as escolas as diferenças das danças existentes na Espanha. Consegui trabalhar com Arabel uns tempos. Com ela pude descobrir a "criatividade". Arabel tinha o dom de recriar e abrasileirar as tradicionais histórias infantis. O apego ao seu país e a necessidade de divertir e informar parecia ser o foco. Aprendi que, apesar de ser ela a diretora, era necessário ser acessível a todos. Era difícil imaginar que Arabel era dona da academia, pois parecia mais uma professora e aluna do que a dona. É como se a dona nunca estivesse ali presente. Arabel sempre demonstrava o "bom-humor" até para resolver os problemas rotineiros. Ela me mostrou a "parcimônia e inteligência" para sanar as dificuldades diária de um comércio.

Theo Dantes. Tenho outras matérias falando sobre ele aqui no blog. É a ele que devo os outros esclarecimentos sobre as Danças Espanholas, sobre o uso da "bata-de-cola" e por me apresentar a Dalal Achcar, a quem também tenho menções em outra matéria e a quem devo muito respeito! Theo foi representante oficial da Sociedad de Baile Español aqui na América. Ele me nomeou seu substituto na Escola Estadual de Danças Maria Olenewa com o consentimento de Dalal Achcar, com quem já estava trabalhando há algum tempo.

Edmundo Carijó
Interessante foi a experiência com jovens aprendizes do ballet clássico e de como foi um desafio formatar e ensinar numa carga reduzidíssima as nuances de algumas e poucas danças espanholas para que pudessem descobrir e, na medida do possível, incorporar o temperamento e o caráter do povo espanhol quando alguma obra ou dança exigisse tal qualidade. Neste período uma figura ilustre frequentava minhas aulas. Não sabia quem era ele, pois o mundo do ballet clássico nunca foi meu meio. A não ser pelas escolas e academias para dar aula. Um dia este senhor me disse: "Você é profissional registrado?" Eu achei que ele era o dono e que iria registrar minha carteira. Risos... "Você precisa ter um registro. É a primeira vez que vejo um jovem amadurecido para dar aulas de dança espanhola. Você conhece a história, domina a dança e ensina aos alunos a pensar além das técnicas. Você fez alguma escola de ballet? Se não, precisará ir ao Sindicato requerer seu registro. Peça aos seus professores e lugares onde trabalhou, documentos que comprovem a credibilidade do que faz, vá lá e fale em meu nome."
E eu abaixei minha cabeça e perguntei quem era ele. Sentado no banquinho e com seus cabelos grisalhos respondeu: "Edmundo Carijó (in memoriam). Mas fala que o Carijó te enviou lá." E foi assim que tirei meu registro após anos ensinando. Confiei nele e no que me disse sobre as condições trabalhistas e os direitos. Foi assim, juntei com a carta da Helfany, outra do Theo e fui.

Dennis Gray
Desenvolvendo trabalhos, apenas consegui a duras penas uma coreografia com as bailarinas formandas (juro que não lembro o ano). Muitas vezes esbarrei com várias pessoas reconhecidas da dança clássica lá.  Papos mil rolaram sobre outras danças e ensino na sala de aula. Havia uma figura baixinha, parecia um boneco de história em quadrinhos que sempre conversava comigo o quanto gostava dos papéis espanhóis que fez. Tive um desentendimento lá dentro onde ele interveio a meu favor alegando que "Artista de outras danças não são menos artistas do que nós do ballet. Ricardo merece o mesmo respeito que todos os mais antigos professores da casa." Esta figurinha maravilhosa que me arrancou lágrimas diante de um preconceito por não ter a formação erudita de dança se chamava Dennis Gray (in memoriam).  Ele me ensinou o quanto qualquer aluno tem seu valor, qualquer professor diferente de mim também tem seu valor de acordo com o caráter que apresenta. Dennis me ensinou a reconhecer meu semelhante.

Raga Bhumi
Susane Travassos
À parte e sempre no intuito de compreender as origens do Flamenco, conheci a dançarina indiana Raga Bhumi e seu trabalho com o estilo clássico da dança. Raga era um doce de pessoa e muito objetiva, paciente e apaixonada pelo seu trabalho. Conheci a dança indiana com ela, em especial o Odissi. E foi essencial para compreender o espírito da dança. Só não havia encontrado o paralelo da dança indiana com o Flamenco ainda. Eu estava errado assim como muitos erram com as danças espanholas porque subestimei a dança indiana com suas escolas também. Então encontrei num livro a palavra "kathak" como outro estilo de dança indiana, pois ao perguntar sobre a deusa Kali, ela se afastou. Eu desconhecia a tal deusa e o seu significado para Raga. Foi quando encontrei e aprendi também um pouquinho mesmo sobre o kathak com a bailarina e pesquisadora Susane  Travassos. Foi uma maravilha, pois tínhamos em comum o Flamenco. Susane teve um grupo que fazia mesclas da Índia com a Espanha ao qual pude participar algumas vezes. O Grupo Raga era um dos precursores na fusão de gêneros folclóricos e com a dança contemporânea. Susane me deixou a marca do quanto as direções são infinitas quando a gente "domina" as artes que escolheu. Foi com ela que vi o quão é fundamental realmente DOMINAR os estilos que se pretende fundir para não ficar algo estilizado. Foi duro o trabalho, mas prazeroso fazer algo que gostava: dançar e experimentar.

Estrella Bohadana
Uma estrela já brilha intensamente em algum lugar do Universo com toda a certeza. Com Estrella Bohadana (in memoriam) tive os prazeres de desfrutar e compartilhar caminhos diferentes sobre o mesmo assunto. Viemos para a mesma direção quando, do nada e até hoje não sei qual a razão, Estrella me chamou para compartilhar uma grade numa rádio de dança. Ela seria a âncora e eu o comentarista. Nossa afinidade foi tão grande que esquecemos quem fazia o quê e quem era o âncora e o comentarista. Uma sintonia que apenas escolhíamos o tema e na hora tudo brotava sem erros e sem diferenças. Uma parceira e tanto que demonstrou uma qualidade imprescindível para quem ensina: a humildade. Se há um exemplo de humildade pra mim é a Estrella Bohadana. Quantos foram os poucos momentos em que tivemos alguma discussão calorosa por divergências? E digo... nenhuma! Sempre soubemos lidar um com o outro. Uma doutora em Filosofia na minha vida que não  esquecerei nunca. E suas experiências pessoais serviriam de certo para as mais profundas e antigas emoções do Flamenco.

A última, mas não menos importante que os mencionados, dedico a Myriam Camargo que, com sua vocação a maestra e também diretora, me mostrou como se pode aproveitar nas qualificações que um dançarino apresenta, nos mais diversos papéis. Myriam tem me dado a chance, eventualmente, de testar o lado dramático e teatral que o Flamenco empresta. Participar como coadjuvante e, às vezes, como antagonista em seus musicais, me dá o prazer de externar aquilo que fica preso. Tenho aprendido com ela o quanto uma equipe precisa ser unida, pensar igual, compartilhar tristezas e dividir glórias. Não há estrelismos em sua escola, não há vaidades entre seus profissionais, mas sim respeito, dignidade e confiança. Quando uma equipe reúne estas qualidades, não há como não dar certo até em tempos difíceis. Deixei Myriam Camargo por último porque vejo nela todas as qualidades que os outros citados me ensinaram. E ela conseguiu encontrar gente assim pra trabalhar com ela. Inclusive de criar personagens para não deixar que os originais fiquem órfãos. Não é mesmo, Myriam?
Myriam Camargo e eu

Estas são as minhas mais preciosas Jóias aqui no Brasil.  Todas as vezes que um percalço na dança me acontece, que algo tenta me surpreender ou mesmo retirar de mim aquilo que tenho de mais valoroso, me lembro deles e de como agir. Não existe melhor lembrança daqueles que só trouxeram positividade na vida da gente. Muitos ficaram sem divulgação aqui. Alguns importantes sim, mas com pouca inteferência como estas mencionadas e outras pessoas, não foram preciosas como estas jóias que menciono, porém tiveram seu significado valor também em minha vida.

Detalhe... a dança só acaba pra mim quando eu me for embora deste mundo!

sábado, 20 de junho de 2015

Língua de Fogo!

Não dá pra ser mesquinho, rir como a Monalisa, ou mesmo dar um sorriso em qualquer situação quando não sou consoante aquilo apresentado. Ou apenas dar um tapinha nas costas enquanto maldiz a pessoa.

Para muitos virei "blasé", metido, arrogante e "dono da verdade". Ah se fosse isso tudo... teria uma legião de seguidores! E como se esta fosse minha missão aqui: ter seguidores! Nem Jesus, o Cristo eu sou! Estou distante disso!

Penso numa palavra muito forte que busco sim nas pessoas: caráter. O dos bons! Pois este atributo tem em todas as direções e segmentos... bons e ruins!

Na arte em geral, quando se necessita convivência se descobre isso. Quando se envolve em trabalhos que necessitam de interrelacionamentos, se vê as facetas muitas vezes mascaradas no seu real intuito.

E é assim, com estes relacionamentos que julgo o meu caráter e seleciono quem quero ao meu lado, em meu círculo.

Então para poucos, e ainda bem, sou sincero, transparente e verdadeiro naquilo que penso e falo. Os afins se atraem e somos testados quando dentro destes afins, uma ovelha dita negra lhe testa, lhe instiga e te faz pensar.

Sempre será assim... testando conhecimentos e praticando-os.

Infelizmente, ou felizmente mesmo, ainda é preciso aprender a "entrar no ninho das cobras (quando necessário), a beber com elas e sair de lá sem estar envenenado". Este é um dito que uma amiga cigana, Magali Ristich (acho que era este seu sobrenome), que já não está aqui, me falou há muitos anos atrás. E faz muito sentido!

Chegar aos 50 anos com estes aprendizados será muito bom! Me faz lembrar também aquilo que meus pais tentaram me ensinar na fase de formação de caráter, fase fundamental na educação de uma criança; e muito abandonada nos dias de hoje.

E fica assim... Se falo eu não presto e se não falo sou pior ainda. Então falarei quando necessário e se for para benefícios e não me machucar sem necessidade.

Cada um escolhe seu caminho, pois a mentira, a hipocrisia, falsa humildade, cara de pau, intolerâncias diversas, mau caratismo, charlatanismo e mesquinharias definitivamente não fazem parte de meu acervo de vida! Já me bastam aqueles que preciso encarar eventualmente em minha vida!


Místicas nas danças...

A profusão de cursos de danças místicas em academias está crescendo. Talvez por falta mesmo de conteúdo de seus diretores e professores que já não possuem mais por onde trilhar com aquilo que apresentam como curso de dança, seja ela qual for.

Precisamos abrir nossos olhos para a grande infestação de cursos de danças místicas em academias e em algumas escolas de danças. Principalmente em se tratando de danças étnicas.

Ninguém é obrigado a estudar as místicas e fundamentalismos religiosos e ser adepto a elas para entender e aprender algumas danças étnicas. Casa de marimbondos: nãos seria mais uma maneira de ganhar dinheiro?

Já imaginou se o Ballet Clássico desse espaço para este tipo de confusão? No que se tornaria? Esta escola é um exemplo de Formatação que deve ser seguida sim! A Escola de Ballet Clássico traz em seu conteúdo uma formatação com início, meio e fim e segmentada com algumas diretrizes onde o indivíduo sai de lá com tudo referente a esta dança. Por qual razão as outras e, principalmente as étnicas, não podem seguir este exemplo? Talvez por isso muitos profissionais deleguem a este estilo de dança a base de todas as outras...

Com todo o respeito as religiões do mundo... será que para aprender a dançar Afro terei que ser macumbeiro? Pra aprender dança Cigana tenho que adorar Santa Sara, jogar baralho cigano e fazer procissão o ano todo?

A compreensão de algumas danças devocionais em escolas e academias deveriam ter foco apenas para pesquisa mesmo, para estudo e a compreensão daquilo que se apresenta. Já imaginou quantos devotos religiosos seriam os mais diversos grupos e companhias de dança simplesmente por apresentarem trabalhos de cunho religioso?

Pergunto então: pra quê ensinar ou praticar diversas danças em casas religiosas? Se adentrar mais a fundo, questionarei e arranjarei mais confusões e, com certeza, este não é o objeto em foco aqui nesta matéria. Apenas alguns casos citados por estarem na moda.

Será que eu deveria ser católico para apresentar uma Missa Flamenca?

Claro que um objeto de pesquisa não deve convertê-lo a um credo se não for de seu agrado e arbítrio. Como disse, uma religião é Objeto de Pesquisa... 

Por isso penso que RITUAIS devem permanecer em seus devidos lugares, seus templos e locais de adoração.

Precisamos abrir os olhos para que a Sexualidade, o Credo e todas as demais condições não sejam fatores determinantes para o estudo e a compreensão de muitas das danças existentes.

Pesquisar sempre traz elucidação e discernimento.

Questionar as fontes históricas apresentadas e pesquisá-las sempre traz iluminação.

O mesmo deve ser aplicado as partes de uma dança quando se cria, sem nenhum fundamento histórico comprovado, divisões e subdivisões daquilo que nunca existiu e querem ensinar. Não seria o tal fato de ser diferente do real e para atrair e ganhar mais dinheiro já que falta mesmo conteúdo num curso normal? Fatos da moda na dança hoje em dia.

Fusão ou CONFUSÃO?

Mais uma vez recaio na máxima da natureza: somos dotados de Razão e Emoção. Devemos utilizar a Razão para questionar, refletir e escolher e usar a Emoção para se sintonizar com aquele estilo que mais lhe agrada.

Quantos dos atuais professores, instrutores e aqueles que se intitulam mestres da dança ensinam seus aprendizes a usar o raciocínio, o pensamento e a sua capacidade de reflexão para aquilo que ensina? Ou simplesmente ditam e afirmam?

Então, onde entra a mística num curso de dança para elucidar apresentações meramente técnicas e pouco emocionais? A emoção na dança precisa da devoção religiosa?

Isso desqualifica profissionais para aqueles que sabem disso e exclui aqueles que possuem seu credo adverso daquele ensinado naquela dança.

Talvez esteja aí um dos focos de distorções nas danças étnicas. Distorções advindas de aconselhamentos religiosos...

Dividam a Dança e o Credo.

É por isso que surgem balelas como estilos ligados a religiões quando na verdade não passam de TEMAS para cada estilo.

Dentro do ensino da dança, a religião não é um estilo, mas sim um tema que pode ser explorado para criações.

Então PARE, PENSE e REFLITA para fazer suas escolhas!


domingo, 7 de junho de 2015

Latachos e Gorbetos

Embora eu seja apenas um admirador da cultura cigana, volta e meia  me aparecem algumas perguntas difíceis de responder. A mais recente foi sobre os ciganos chamados  "gorbetos" e  "latachos".

Conversei com minha amiga, a escritora e professora de literatura Cristina da Costa Pereira, que me sugeriu usar as palavras de uma calin a quem ela muito respeita e hoje não se encontra mais entre nós.


Em seu livro intitulado "Ciganos: a Realidade", página 21, Ed. Heresis, 1999, Sally Edwirges Esmeralda Liechocki disse:
" Foram os hindus que viviam na Inglaterra que informaram serem os ciganos unidos aos 'dom' e 'nats', os quais eram andarilhos, cantores, acrobatas e etc. - os ciganos então 'latachos' ou artistas de circo."

Cristina me disse não ter nenhum conhecimento profundo da língua cigana, salvo alguns vocábulos e pouquíssimas expressões. Como qualquer língua é dinâmica, a língua cigana também vive da aquisição de palavras novas (neologismo); o que significa as diferentes palavras para um mesmo sentido. É impossível que todos os ciganos conheçam todos os dialetos por conta desta diversidade.

Há, inclusive, diferenças na escrita de acordo com o país onde nasce o cigano, pois sofrerá influências da fonética local interferindo na grafia desta cultura que é ágrafa. 

Ainda usarei de uma observação feita no final do livro "Lendas e histórias ciganas", desta autora, em que diz no pé da página 155:

"Em se tratando de um povo de cultura ágrafa, não se pode exigir uniformidade de grafia para as palavras."


Então será comum entre calons que "latacho" tenha o mesmo significado de "gorbeto" para os rons podendo se referirem aos ciganos andarilhos e artistas circenses.