terça-feira, 9 de julho de 2019

Luz na Cena Flamenca hoje... erro comum nas cenas teatrais


        Sou dançarino, instrutor, coreógrafo e figurinista da Arte Flamenca há muitos anos e persigo e investigo tudo aquilo que envolve a cena que mostramos ao público. E é comum encontrar alguns espetáculos de companhias de Flamenco e, em geral, academias e escola de dança que reduzem o universo da Arte Flamenca ao jargão “preto e vermelho”. Isso nem é tão ruim quando se tem o conhecimento e sabemos que realmente as cores, além do preto e vermelho, são fortes e muito presentes em nosso universo artístico. Faz parte da cultura que estudamos! Já mencionei estes aspectos no contexto de elaboração de figurinos aqui no blog.


 Mas quando existe a persistência do erro é fato e absoluta a falta de conhecimento daquele que dirige, produz ou faz alguma coisa sem consultar o profissional daquela arte. Já basta dizer que a filmagem e as fotos ficarão muito ruins se usarem somente luzes escuras; normalmente acham que Flamenco se reduz a cor vermelha. E quem dirige o show é quem escuta sobre a filmagem e as fotos estarem uma grande “M” alegando ser os profissionais contratados muito ruins para tal registro.



A bem da verdade, repito, é pura falta de conhecimento sobre a Arte Flamenca. Já mencionei em vários artigos aqui no blog sobre a carga emocional ativa nas boas representações artísticas do flamenco quando se respeita aquilo que é cantado. É ali a fonte da expressão maior, pelo menos para mim e outros colegas que pensam o mesmo sobre a arte que representamos e estudamos.


Com isso, trabalhar os contrastes de claro e escuro evidenciam estas expressões, valoriza a pesquisa e os figurinos coloridos, embeleza o cenário e dá um dos melhores registros para a fotografia e a filmagem. Isso não quer dizer que não se deve usar cores na iluminação. Apenas trabalhar os contrastes da luz e usar efeitos de sombra mesmo.


Portanto, não custa nada consultar a quem cria a coreografia o quê deseja para realçar seu trabalho com a iluminação. E não caiam no jargão “Flamenco é vermelho” porque só terão fotos e filmagens estouradas além de estragarem os figurinos, complemento tão essencial na montagem desta dança, e que perdem totalmente seu valor quando excedem na iluminação.


Ainda dou a dica quando houver algum texto sobre a dança que não conhece: consulte o responsável! Costumo ver gafes terríveis só porque o texto foi tirado do Google. Cuidado! Você pode literalmente queimar o profissional que tem em seu espaço quando o ignora como o tutor da arte que ele ensina.


Então, vamos pensar nisso?

As fotos foram tiradas de vários sites livres na internet. Achei a idéia destas fotos para deixar claro que os CONTRASTES de claro e escuro são super bem vindos na iluminação no flamenco independente das cores usadas.

Usem essas fotos como inspiração para aquilo que deseja... melhorar seus registros e agradar a todos.

terça-feira, 28 de maio de 2019

REFLEXÕES SOBRE A DANÇA ARTÍSTICA


        De princípio, digo que qualquer dança já é artística seja a sua natureza acadêmica, de matriz étnica ou dita popular. Não encontrei em nenhum site nacional algum movimento que especificasse o que é, qual a sua origem e como se deu o desenvolvimento do que alguns pregam como “dança artística” seja ela qual for.

         Estou há mais de 30 anos no mercado de dança nacional trabalhando e estudando uma dança de matriz étnica, o Flamenco, e desconheço qualquer outra argumentação dentro da dança que não seja as dispostas no mercado. Não, não tenho nível superior em dança e isso não me impede de pesquisar, refletir e questionar aquilo que o mercado apresenta. Tenho DRT, o que me confere apto a instruir sobre a dança que ensino e atuo segundo a Lei 6533, e já trabalhei alguns bons anos no Sindicato dos Profissionais da Dança de meu estado de forma voluntária.

         De algum tempo pra cá os nichos de algumas danças agregaram ao título convencional o termo “artística”. Na maioria das vezes em nichos de danças populares.

         Sobre danças populares ou étnicas há de se convir que se estude a história e costumes daquele povo que é seu nativo para entender, inclusive, as máximas de sua expressão artística; no caso a dança em foco. É comum dentro da escola tradicional de balé que se estude alguns povos para futura estilizações dentro de um tema proposto. Estilizar, neste caso, significa fazer algo que lembre aquele povo com roupas e visuais quase típicos, músicas com traços do povo representado, gestuais na dança bem como os figurinos muito próximos do que seria a realidade do povo representado segundo uma época histórica, seja real ou fictícia mas calcada naquele povo representado. Isso não quer dizer que aquilo que se representa seja fiel aos costumes daquele povo, mas apenas traços que podem lembrá-lo. É a Dança à Caráter da escola de Balé. À exemplos: La Bayedere, Carmen, A filha do Faraó, Dom Quixote, Copélia e tantos outros balés que simplesmente não são representações fiéis à cultura de cada povo de referência nas obras coreografadas.

         Na Espanha se referem as danças estilizadas como “Clásico Español” onde é necessário dominar os outros segmentos de danças do país (Escuela Bolera, Bailes Regionales y Flamenco) para poderem criar danças espanholadas independente do gênero musical utilizado. O maior exemplo disso é o famoso Paso Doble que era apenas um gênero musical para alegrar as touradas, passou a ser utilizado em bailes populares em duplas (como na nossa dança de salão) até chegar na estilização que conhecemos coreograficamente onde o dançarino quase sempre representa um toureiro e a dançarina uma típica espanhola com seus adereços tradicionais. Esta dança entrou para o ramo das danças estilizadas ou “clásica españuela”.

         Desta forma traço um paralelo com aquilo que conhecemos como dança africana aqui no Brasil onde se aprende movimentos de algumas danças bem primitivas de alguns países africanos misturado a passos de jazz, ou afro-jazz, e a dança dos orixás de religiões afrodescendentes. Embora devamos reconhecer que a África não é um país e sim um continente com muitos países. Então não seria errado dizer que a dança egípcia seja africana assim como as danças da Argélia ou da Ilha dos Açores. Então acabamos por generalizar as danças populares de um continente a reduzidos movimentos se compararmos com a extensão territorial do continente e seus países.

         E o que falar sobre dança brasileira? Samba? Forró? Chula? Sertanejo? Sim! Estas e todas as outras danças do país. Todas são danças brasileiras. Algumas até são ensinadas durante a primeira fase escolar. Quem se lembra do Côco ou do Carimbó? E a dança dos nosso índios tão esquecidos e ignorados? Todas são danças brasileiras.

Carimbó

           Quem disse que sou o único a pensar sobre danças estilizadas que chamam de folclore? Vejam este artigo sobre nossas tradicionais quadrilhas de festas juninas...

         Aonde elas são chamadas de “artísticas” quando apenas são estilizadas sem o compromisso do folclore? Com isso adentro um nicho muito vulnerável aqui no país e que começa a se alastrar no estrangeiro por culpa nossa mesmo. Não existem regras ou mesmo legislação para isso, mas existe o bom senso e, principalmente, o respeito a uma cultura que não é a sua e que ainda existe.

         Em vários artigos neste blog remeto aos cuidados que aprendizes e admiradores devem ter com o nicho da dança cigana que, razão que desconheço o fundamento, agregou o termo “artística” já mencionado no início deste artigo. Sem delongas, não adentrarei aos meandros de tantas observações que já fiz, mas trazer total atenção para aquilo que vendem como “artístico” de um povo existente, que tem sua própria cultura e costumes muito particulares os quais não temos total acesso e que, ainda que parcialmente velada aos olhos daqueles que não a pertencem, não se mostra a não ser pelas facilidades que o atual quadro de oportunidades oferece para os que são mal exemplo de sua etnia. Estas danças exibidas podem até ter um fundo de pesquisa embasado seja no campo de vivência entre eles (o que é raríssimo em se tratando de todos os povos ciganos do mundo por conta do grande investimento financeiro e a demanda do tempo para dominar todos os estilos) ou pelas duvidosas pesquisas na internet onde muito se encontram nas “fake news” e as invencionices estilizadas para alimentar o mercado deste nicho. Nenhum outro povo discrimina outros povos na representação de suas danças quando o respeito lhes é conferido por não alterar aquilo que não é seu ou mesmo inventar aquilo que aquele povo nunca fez em sua trajetória histórica.

         A dança será sempre estilizada com embasamento naquilo que se tem acesso e nunca será fiel se não for feito exatamente como seus nativos a fazem.

         A pensar, será que uma japonesa jamais sambará como uma brasileira? Ela precisa nascer brasileira para sambar? Já é mais do que notório que qualquer um pode dançar qualquer dança de outros países quando aprende e estuda com os idôneos profissionais, quando estes existem, e trazem comprovadamente “atestados de notório saber”, ou similares, ou os devidos “reconhecimentos” de seus nativos enveredando que as danças são sim de seu povo, mesmo que não tenha nascido entre eles.

         Nenhuma escola que eu saiba aprende as danças de outros povos sob a tutela religiosa ou de pessoas que sequer vivenciaram, ainda que de forma mediana, as mesmas danças que ensinam “artísticamente” falando adorando a bandeira, cantando e/ou dançando (?) seu hino e adotando uma divindade que não é exclusiva da etnia inteira. Até sobre o quesito religiosidade já falei no artigo “Místicas na Dança” aqui no blog.

         Parou pra pensar nisso?

       Se os próprios nativos sequer se manifestam sobre este caso, como confiar naquilo que o mercado vende? Títulos profissionais só servem para as demandas trabalhistas. Mais vale o aval de um nativo do que tantos diplomas sem reconhecimento das Secretarias de Cultura, Ministérios de Educação, ou seja lá qual o órgão daquele povo ou país em questão, a reconhecê-los como semelhantes e aptos a ensinarem tais danças ditas como daquele povo.

         À exemplo de uma dança de estilo ATS (American Tribal Style) que gentilmente a colega e respeitadíssima Aline Muhana me deixou um link falando sobre esta dança nova no mercado. Ela não é nascida em um povo, mas da fusão de passos de vários estilos folclóricos onde a base está toda focada na Raks Sharki, aqui conhecida como Dança do Ventre, uma outra dança de matriz étnica. (   https://docs.google.com/document/d/1FH6_hqD2mh5wmv_RULv_WZKGJ2P1PwRhRwrd-QHnwTY/edit?usp=drivesdk
  
          Comparando com a outra, há que se pensar que, mesmo não nascida em um povo, esta dança tem todo um fundamento que começa na sua base histórica, Raks Sharki, mas que evolui na fusão, na mescla e na liberdade no uso de músicas para suas coreografias.

            PENSE!!!

            REFLITA!!!

            Dança Artistica...onde? Todas as danças já são artísticas!


           Dança cigana estilizada
Esmeralda - O Cordunda de Notre Dame

          Daria para aprofundar mais sim. A crítica é direcionada ao questionamento e a reflexão do uso desnecessário deste termo se ela está embasada numa cultura viva, atuante e existente em vários países com suas particularidades que bem define seus diversos estilos e não comumente rotulada com um mesmo tipo de roupa e seus similares para dançar qualquer música dita deste povo sem sequer entender o que pensam, sentem e expressam sobre suas vidas, costumes e religiosidade que são refletidas nas danças de cada país.

          Ainda confundem estilização com fusão, com confusão e com qualquer outra coisa que não represente aquele povo...salvo sua esteriotipação.

          Por qual razão fazer isso se não seria mais honesto apenas apresentar o que se sabe, o que se pode sem inventar o que sequer representa em absolutamente nada um povo já tão perseguido, mistificado, alvo de preconceitos no decorrer de sua história e usado por oportunistas em todos os sentidos que envolve a vida?

          Isso não ocorre em outras danças de matriz étnica. Quem não é reconhecido pelo povo que a originou, é simplesmente ignorado por todos. Só mesmo aqui no Brasil se tolera isso. Quero ver quando os donos destas danças derem suas caras e exigirem o que é deles, pois estão corroborando para tudo de negativo na sua massacrada história.

          Não quero que pensem como eu. Se pensar e refletir usando do bom senso, já será de bom tamanho.

            Então, é justo?

           Melhor chamar de Dança Temática então...

quarta-feira, 26 de dezembro de 2018

Cuspindo abelhas e chovendo vespas 2


Um desabafo de uma realidade que mexerá com muitos donos de academia. Muitos profissionais da dança passam em silêncio aquilo que relatarei abaixo; o que me decepciona bastante por se renderem a isso.

Há mais de 30 anos trabalho como terceirizado por opção embora já tivesse um espaço em sociedade que não deu certo por divergência de pensamentos. Mesmo assim, foram cinco anos de convivência para sentir na carne o que é administrar um espaço. Os problemas de um estabelecimento são normais, mas o maior problema na sociedade foi a falta de cumplicidade e divisão de pensamentos. Sempre me ouviram por respeito, mas no final sempre fizeram o que queriam. Passou. Serviu para ver como se administra uma escola de dança. Não foram 5 semanas, foram 5 anos!!!

Muitas escolas e academias, onde qualquer novo professor entra quer dar o melhor de si para ser reconhecido e ter mais aluno, mas as academias se mostram de um jeito no acordo e agem de outro. Todo terceirizado entra acreditando que isso significa que ambas as partes terão, além dos alunos, mais dinheiro no mês seguinte acreditando no famoso  e habitual acordo verbal.

Vestimos a camisa do novo trabalho, fazemos praticamente tudo o que os outros fazem. Porém raríssimos são os locais que realmente te valorizam como profissional, se preocupando com as ausências de alunos, com o seu cachê quando contribui com um solo no show de fim de ano ou mesmo uma ajuda de custo para o traslado haja vista que é seu trabalho ali sendo exposto e não remunerado. Total falta de respeito... quando muito, contam com seu nome por ter uma carreira reconhecida nos palcos e, ainda assim, sequer anunciam publicamente que você se encontra naquele espaço; o que deveria ser motivo para propagandas para atrair mais contingente. Muitas das vezes o acordo financeiro se resume até uma divisão justa de 50% e que se rompe quando não te avisam de alunos com descontos e bolsistas. Sendo que quase sempre o desconto dado sempre recai na sua parcela da cota. Lembrem que o terceirizado ganha por cabeça!

Além disso, quase todos os lugares não promovem, através de propagandas, a existência da sua arte ou mesmo que você está ali no espaço deles. No máximo divulgam somente o trabalho da modalidade chefe da casa; seja ela de matriz acadêmica ou étnica. Mas deveriam se atentar para as partes fracas de seu negócio. Fracas por causa deles mesmos. Sempre a culpa recai na ausência da procura... Onde se encontra a aplicação da lei da Oferta e da Procura? Tenho que rir... só se procura no seu comércio quando se oferece o produto que tem. De nada adianta ter um produto de qualidade se ele fica guardado na gaveta.

Então é normal, com o tempo, que a sua turma ou modalidade mingue, murche, esvazie ou mesmo acabe por falta de investimento do tutor do espaço onde trabalha. Fica mais difícil ainda quando não existe nenhuma segurança ou mesmo um "contrato de prestação de serviços" com os alunos que lhe garanta ganhar sua cota no mês seguinte. Entram e saem a bel prazer. Não há taxas para trancamento, multas por atraso que, na existência, não te repassam e nem dividem com o profissional. E não cobrem o mês atrasado quando o aluno sai sem avisar mesmo que o aluno tenha feito o mês todo. Fica-se sem esta parcela. Nunca sabemos o quanto se ganhará por conta disso. Apenas subestimamos pela quantidade de alunos na sala de aula.

Quando se vai exigir valores sugeridos pelo órgão que te representa, sempre indagam não poder cumprir porque acham os valores caros! Na verdade, para quem conhece a tabela os valores estão muito acessíveis sim!

Total desrespeito ao profissional que vive de sua arte. Sempre acho que estes donos de academia devem ter outro negócio porque não dão a mínima para o contingente das modalidades que não seja a sua ou então nem vive deste comércio de danças. Deve ser apenas hobby para eles...

Eu posso sentir o gosto do arrependimento por não ter aberto minha sala, meu estúdio ou academia sozinho. Com certeza daria ao meu corpo docente o mínimo suficiente para se sentir feliz trabalhando comigo. Falta uma gestão honesta e transparente por parte de quem administra. 

Cansei disso tudo e louvo o amigo profissional que enfrentou e hoje tem sua sala, tem seus alunos e equipe de trabalho.

Um erro meu acreditar na maioria que se diz pensar e agir diferente dos outros donos deste comércio. Todos da mesma corja...

Mas consigo salvar raras e pouquíssimas academias que conheço. Só falta trabalhar com uma delas porque as demais não merecem sequer serem lembradas.

Vivo os 12 meses do ano e todos os meses tenho gastos similares, mas trabalhando pra essa gente só se ganha entre 9 e 10 meses... os outros? Acham que hibernamos junto com os juros das contas pendentes.

Detalhe: sequer falei em ter carteira assinada. Apenas ser respeitado profissionalmente falando e ser remunerado como terceirizado durante o ano.

E dói muito mais ao ver o colega profissional (de qualquer dança) que se submete a esta condição alegando ser esta a única condição trabalhista. Muitos são ótimos profissionais, mas desdenham de si mesmo no quesito negócios trabalhistas.

Sempre disseram que sou pessimista e digo que sou realista. Agir e declarar isso publicamente é, possivelmente, fechar mais portas de trabalho. E isso apenas constatará que o que falo não é mentira.

É a verdadeira ação do trecho da oração "venha a nós o vosso reino" e que eu completo "e nada da sua vontade".

Mais uma vez cuspo abelhas e chovem vespas... Parece que só há duas saídas: ou fico cego e me calo diante deste comércio aceitando-o ou abandono a profissão que escolhi.

Será que em outras profissões também é só assim?

As abelhas e vespas são parecidas. A diferença básica entre elas é que as abelhas não são predadoras como as vespas.

terça-feira, 4 de dezembro de 2018

Traje de Flamenca X Traje de Baile

Antes de iniciar a reflexão quero dizer que o figurino (traje) é um complemento que, aliado a iluminação, vai ajudar na compreensão daquilo que vai interpretar.  Hoje em dia usa-se qualquer roupa. Em particular, umas sequer trazem bom efeito em cena, mas isso é gosto do artista que, sem as devidas referêcias e bom senso, usa a bel prazer na maioria das vezes satisfazendo seu ego sem se importar com aquilo que será visto pelo público. Às vezes é isso mesmo que o artista quer, chocar. Artista, quer queira ou não, é formador de opinião.

Para aqueles que se preocupam com a composição do figurino para seu baile, provavelmente devem estar seguindo algumas destas dicas a seguir. Flamenco é uma arte democrática e, por suposto, qualquer forma física ou idade independe dos ditames do comércio. Sobre a cor e estamparia já escrevi outro artigo expondo o que é louvável pensar por conta do nosso mercado de tecidos disponível.

Quando se conhece bem o palo e sua origem regional já terá um bom veículo para inspirar como será seu traje. Fora isso, como já mencionei no início,  estão usando de tudo sem nenhum critério. Quando muito, a aparência espanholada.

Traje de nesgas

Traje de Flamenca são aquelas roupas “inspiradas" naquilo que se refere ao Flamenco e de tudo que se vê de forma estilizada. Normalmente usado em passarelas, em desfiles e por cantantes porque são apenas uma fantasia, seja ela tradicional, moderna ou contemporânea, porque não tem as movimentações da dança que, para quem pratica, sabe que exige liberdade de movimento. Para os homens se institui o tradicional terno sem a gravata. No lugar da gravata ("corbata" em espanhol) usa-se uma echarpe, lenço liso ou estampado que se conhece como “pañuelo" e pode ter vários  tamanhos e de diversos tecidos. Para as mulheres são  apenas três  bases para o vestido que pode ser “volantes de capa" (com babados a escolher tamanhos e quantidades de fileiras), “canastera" (com babados grandiosos e ligados uns aos outros por franzidos logo abaixo) e de “nesgas" (entre as costuras se coloca um triângulo na base com o tamanho desejado).

Modelos canasteros

No caso dos vestidos, costumam usar como base o vestido tubinho tradicional que dá, inclusive, o famoso formato sereia (ou “sirena" em espanhol). Este modelo é muito usado até hoje por vários estilistas nas atrizes durante a entrega do Oscar. Modelo que é justo da cintura seguindo a forma dos quadris e bumbum e acabando justo nos joelhos...por isso é chamado modelo sereia. Muito comum em  batas de cola, mas que só servem para cantoras de coplas e não para bailes. E este erro tem sido constante por aqui por conta da ignorância dos ditames para a dança.

Em vários artigos que escrevi sobre batas de cola, menciono a bailaora Inmaculada Ortega a quem sigo como estudante de flamenco e com quem me aconselho nos diversos tipos de batas de cola, que menciona poder bailar com qualquer bata e que sua modelagem, tipo de tecido, tamanho e quantidade de babados vão interferir no resultado de sua dança por conta do peso e da mobilidade no modelo escolhido para confecção.

Modelo sereia

Os Trajes de Baile, como diz o próprio nome, é  para dançar. Ou seja, possui modelagem diferenciada para a dança. As inspirações vêm do conhecimento histórico do palo a representar, da letra cantada ou mesmo inspirados nos Trajes de Flamenca.  "Inspirar" não significa "copiar", inclusive, a modelagem. Precisa de todos os devidos ajustes para a dança. Há que se usar do conhecimento da modelagem para adequar os decotes, mangas e cavas e de onde partirá a roda da saia, pois o modelo sereia só  servirá se for confeccionado em malhas com um bom teor de elastano haja vista que os movimentos de pernas são amplos e o detalhes de “não segurar" a saia para sapateado. E isso pode interferir no tipo de costura como Alfaiataria ou Malharia (também com artigo exposto neste blog). O único detalhe sobre o modelo sereia é  que ele pode ser ajustado, no mínimo, até o quadril e usar a medida do quadril para seguir até os joelhos. Além disso, muitos dos tecidos podem não servir para a dança. E mais, as roupas dos desfiles (os famosos Trajes de Flamenca) são criados PARA DESFILES e tem custo muito elevado por se tratarem de exclusividades, por usarem o método da alfaiataria e por servirem apenas em corpos como as modelos. O início da roda da saia pode começar pela cintura, metade da altura entre cintura e quadril, a partir do quadril, do meio da coxa ou mesmo a partir dos joelhos. Dependerá do que fará na sua dança...

Volantes de capa

Demais, pode-se usar as mesmas inspirações de saia citada no Traje de Flamenca. Um exemplo restante a mencionar e fora do padrão flamenco, mas que faz uma assinatura em quase todas as suas roupas, são as saias usadas pela bailaora Sara Baras que usa demasiada roda em seus vestidos lembrando muito as saias de Isadora Duncan, dançarina precursora da dança moderna. Além disso, não é qualquer tecido usado para estas saias... Neste caso, este tipo de saia acabou se tornando uma marca nas roupas usadas por ela e que tem característica movimentação usada em seus bailes.
Pañuelo tradicional comumente encontrado amarrado no pescoço de quem dança
Para os homens não existe tanta restrição. Ou estão totalmente adequados a modernidade ou usam o típico traje inspirado nos toureiros. Aquela calça de cintura alta e justa no corpo usado com tirantes (suspensórios), opcional um colete curto e, às vezes, um bolero simples. Todos eles seguindo a estética da alfaiataria. Torna-se visualmente luxuoso quando possui bordados típicos da Andaluzia.

Traje antigo de bailaor

Então é mesmo usar destes conhecimentos e do bom senso para compor seu figurino e não  cair no vexame do exagero, dos modismos passageiros ou da falta de conhecimentos caindo numa típica estilização espanhola.


Traje atual dos bailaores

E então, onde você se enquadra?
Na dúvida, consulte gente especializada no assunto. Vivemos um momento em que é difícil expor o que se pensa, pois tudo está polarizado demais. Ou você está à favor daquilo que te expõe ou será radicalmente contra. E com isso, muitas vezes te colocam como inimigo do momento. Isso é muito ruim quando novatos profissionais são apoiados por profissionais experientes apenas para manter seu fluxo de contingente nos eventos que fabricam durante o ciclo anual ou mesmo por obter alguma facilidade financeira em seus figurinos desmerecendo sim o profissionalismo daquele estilista ou confecção que, para não perder cliente, acaba cedendo ou "oferecendo" este tipo de vantagem.

A roupagem nas danças de matriz étnica, como o flamenco no caso, também faz parte do processo de aprendizado na composição final de seu trabalho. É a cultura de um povo que não é a sua. E entender e respeitar sua história é o mínimo a fazer para não cometer erros graves. Imagine-se na Espanha pedindo "aquele pente grande que coloca na cabeça e que coloca uma renda grande como véu". Ou ainda,
"quero um vestido de cigana espanhola com bolas grandes, um xale espanhol para dançar que não seja muito grande" ou "quero aquele leque grande". Garanto que, mesmo traduzido para o espanhol, não saberão muito o quê te oferecer por você não se referir com precisão a que dança se refere e o quê realmente precisa  para seu baile. Como lojista, vão te empurrar qualquer coisa espanhola para vender mesmo e ainda vão dizer que está lindo! Cansei de ver alunos trazerem vários artigos folclóricos achando que, por ser autêntico espanhol, que é para baile flamenco. E isso ainda acontece nos dias de hoje!

Xale espanhol (mantoncillo)
serve apenas para adorno

Mantón para baile flamenco

Pelos mesmos erros na falta do conhecimento da cultura de um povo é que muitos estrangeiros ainda acham que Buenos Aires é a nossa capital. Portanto, estude a cultura de sua dança e aprenda a  diferenciar Traje de Flamenca e Traje de Baile, acessórios e etc. Ou, no mínimo, respeite e consulte quem realmente conhece. Não é feio e nem vergonhoso assumir que não conhece aquilo que quer. Mas será estremamente ridículo se colocar como sapiente...principalmente diante de seus alunos...

Pense nisso.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2018

Pronta Entrega ou Sob Medida?

Há mais de 25 anos trabalho com figurinos de dança. Enfrentei e ainda enfrento a ignorância de meus contratantes quando o assunto é prazo e satisfação por não conhecerem aquilo que relatarei abaixo. De alguns anos pra cá, confecções amigas surgiram e a maioria trabalha com figurinos prontos e diversas  coleções sugeridas segundo aquilo que o mercado textil oferece. Compram a peça de tecido inteira. Cada peça fechada costuma ter uns 80 a 100 metros de tecido. E pode até ser peça única; o que pode dar um ar de exclusividade na produção de uma coleção. Poucas trabalham com alfaiataria ou com figurinos sob medida. Como decidir o que empregarei no meu espetáculo? Com quanto tempo devo pensar nisso? Quero exclusividade ou coleção pronta? O quanto estou disposto a investir? O quê é o correto a fazer?

Estas deveriam ser perguntas a serem respondidas na hora de pensar nos figurinos.

Qualquer roupa de "pronta entrega" deve ser entendida como diz o nome, pronta para usar sem muitas opções de escolhas a não ser cores, estamparias e modelos. São roupas confeccionadas previamente com medidas pré estabelecidas pelo comércio de roupas. São os famosos P, M, G, GG  e etc que fazem parte das medidas ditas "padrão". E os ajustes costumam ser cobrados por fora quando a confecção ou loja dispõe deste serviço . Algumas lojas até oferecem alguns ajustes básicos como bainha em função do comprimento. Mas na maioria das vezes apenas tem direito a troca por outro tamanho para adequar a roupa ao seu corpo. Nada mais que isso. Por esta razão o preço é bem acessível.

Uma das diversas tabelas
na confecção de
Pronta Entrega

A facilidade deste tipo de roupa é que basta ter sua simpatia pelos modelos prontos e que você acha se enquadrar no seu trabalho para ilustrar e complementar sua dança de acordo com aquilo que ela representa. A maior vantagem deste tipo de roupa é o ganho no tempo; mesmo que seu show se pareça com o de outros grupos e academias por conta do uso de mesmos modelos. É o preço a se pagar se isso não lhe incomoda.

A roupa sob medida costuma ser mais cara e leva muito mais tempo para a confecção porque o processo deve levar em conta estes dados:
1) escolha dos modelos em função da dança a ser representada e se serão iguais ou diferentes entre si
2) escolha da confecção para estudar preços e tempo de serviço
3) em função dos modelos escolhidos, estudar cores, estampas e os tecidos disponíveis pra isso.
4) retirada de medidas e confecção de moldes personalisados (isso é o que mais encarece por não passar pelo processo dos tamanhos convencionais do pronta entrega)
5) corte, montagem e 1a prova (normalmente é só o esqueleto da roupa ainda muito crua)
6) 2a prova com os ajustes da 1a prova para montá-la quase toda
7) 3a prova com a roupa quase toda pronta para certificar medidas e ajustes antes de colocar os acabamentos e fazer as últimas alterações
8) prova da roupa pronta para ver se não há mais ajustes
9) entrega da produção

Produção Sob Medida levará
em consideração as
particularidades de cada corpo

O serviço sob medida leva de 4 a 5 vezes mais tempo do que o habitual. Necessita-se pensar nele de 4 a 5 meses antes para que o tempo hábil seja bem aproveitado e não se pule etapas. Ou seja, supomos que seu show seja em dezembro. No máximo e estourando o tempo você deverá começar ver seus figurinos, no prazo máximo, em agosto.

O que é difícil compreender pelos contratantes deste tipo de serviço é que, em se pulando alguma etapa acima incluindo o tempo para escolher, sempre terá um resultado insatisfatório porque ocorrerão naturalmente erros. Raríssimos são as vezes que se consegue resultado satisfatório abaixo deste prazo. E neles não deveria ser colocados a responsabilidade destes erros na confecção ou em quem os produz. Quando a leva de roupas ainda tem figurinos diversificados demais, precisa-se de uma equipe grandiosa para atender a demanda e isso aumenta o custo da produção. Este é o serviço mais caro para roupas, mas é o único capaz de dar sua assinatura pessoal em seus figurinos e deixá-los únicos e distantes da pronta entrega.

Se você quer um portfólio com os croquis, pague por essa exclusividade e os tenha para sempre só com você.

Embora a modelagem para dança, seja ela qual for, tenha suas peculiaridades que a difere da roupa convencional e de uso diário, um figurino sob medida pode ser comparado como comprar um vestido de noiva pronto ou fazer um que só você tenha. Por mais que se alugue um vestido, as lojas te darão direito, no mínimo e segundo o valor que se paga, a 2 provas para ajustes.

Existe a possibilidade de misturar uma modelagem pronta e fazer adaptações. De qualquer forma, como no vestido de noiva alugado, precisará da escolha do modelo, da prova da roupa, da 1a prova para ver resultado do ajuste, da 2a prova e da prova final dentro de um tempo hábil para isso.

Bem diferente da pronta entrega, não é mesmo?

Se vale a sugestão, pense bem antecipadamente em seus figurinos e a forma de tê-los (pronta entrega ou sob medida) para que não hajam falhas e a culpa não recaia na confecção ou na produção em caso de insatisfação com o resultado. Em caso de tempo curto, terá que abandonar suas idéias pessoais e ir para a  pronta entrega mesmo.

Pense nisso...

domingo, 11 de novembro de 2018

Instrumentos no Flamenco, além da convenção

Depois da tradicional guitarra espanhola que conhecemos como violão e as castanholas, desde as inovações trazidas por vários músicos flamencos, basta lembrar a inserção do Cajon por Rubem Dario trazido pelo saudoso e grande guitarrista flamenco Paco de Lucia,  vários outros instrumentos estão se aliando e completando a esfera musical abrilhantando os shows.


A intenção deste artigo é lembrar que, por mais exímio que seja tal músico e seu instrumento, inevitavelmente precisará estudar e compreender as escalas musicais do flamenco da mesma forma que o convencional guitarrista sabe. E  será mais profundo ainda quando tiver que acompanhar a dança.

Então,  estes músicos de quaisquer instrumentos, sejam aprendizes ou profissionais, precisam aprender a estrutura do flamenco como nós artistas convencionais (cantaores, bailaores e guitarristas) sabemos.


Existem outras culturas onde a semelhança estrutural facilita a absorção e compreensão do flamenco. Portanto, é sim possível quaisquer instrumentos além da convencional guitarra para acompanhar shows flamencos.


Declaro não ser músico e as minhas referências vêm do convívio com esta nova fase. E aos amigos músicos, se falei alguma bobagem, me perdoem e peço humildemente que complementem meu artigo.
Vocês merecem minha admiração e respeito.

sábado, 10 de novembro de 2018

Cor na composição de figurinos pra dança


É muito comum nos dias de hoje que muitos coreógrafos em seus delírios acabem imprimindo, também, suas idéias sobre o que imagina como figurino para seu trabalho. Nós do ramo das roupas, quero dizer, nós os Figurinistas, realmente levamos muito em consideração estas inspirações e as adaptamos à dança quando viáveis.

A maioria cabe sim. Mas o erro recorrente é escolher cores sem conhecer o que dita o mercado têxtil nacional. Tentamos avisar e pedir para trocar a cor (ou cores) por conta disso. Porém,  muitos coreógrafos são irredutíveis achando que confecções e o próprio mercado têxtil tem que atendê-los.

Com isso, não é difícil que muitos colegas de confecção de figurinos percam horas e dias atrás de algo que possa favorecer a idéia do contratante e, na maioria das vezes, nós somos colocados como profissionais desqualificados por este detalhe. Detalhe que o contratante não remunera pelas horas, às  vezes dias, que perdemos para isso. É um total desrespeito ao profissional que trabalha para satisfazer seu cliente. Fora o fato da tão famosa "pechincha" porque o cliente quer luxo a preço de lixo.

Um figurino não se produz em 45 dias sem conhecer as propostas do mercado têxtil nacional.

Sugiro que acompanhem as tendências de cores para cada estação aqui, e não no exterior onde buscam suas inspirações.  No exterior (no caso a Espanha em se tratando de Flamenco) existe e se alimenta de um mercado têxtil voltado para seu folclore durante todo o ano letivo. Nosso MT (mercado têxtil) mantém nas prateleiras a convenção do ano e substitui as de fora da estação pelas novidades. Em se tratando de moda aqui, isso ocorre com frequência durante o ano todo! No máximo manterá durante o ano aqueles tecidos de uso cotidiano para que seu comércio não fique estagnado. São tecidos comuns como sarja, tricoline, viscose, oxford, cetins variados e tantos outros comumente usados. Nas malhas, somente os de moda...

Muita coisa mudou para pior na qualidade de algumas malhas porque aqui elas não são voltadas para a dança.  São para o uso cotidiano,  para vitrine e esportes. Malhas essas que são muito pesadas, às vezes com muito elastano ou muito finas. O preço normalmente é cobrado por quilo e o rendimento varia em função do tipo de malha e pode sofrer variação até por causa da pigmentação. Algumas roupas saem caras por conta disso. No caso das rendas, muitas até melhoraram. Porém,  sem muita variedade de desenhos ou cores. Sobre elas, está  quase extinta aquelas mais encorpada...

"Ah, é só comprar na fábrica de malhas!" Já ouvi isso de muitos clientes ignorantes. Uma produção pequena não comportaria um pedido EXCLUSIVO numa fábrica.  O preço quase triplica e duvido que a produção queira sair de seu orçamento para apenas satisfazer sua idéia de cor em sua composição. O que dirá isso em academias onde os alunos custeiam a produção.

Componha sua idéia antes sim, mas consulte o MT ou peça uma "consultoria" com figurinistas para ver o quê vem pela frente em termos de MT para encontrar algo que lhe ajude nas suas idéias. Não precisa saber costurar, ser estilista ou o que o valha para entender do mercado têxtil.

Fica o conselho... na dúvida, caia nas cores padrões que sempre existirão no mercado. Cores secundárias variam, mas se encontra. Já as de "tom sobre tom" será de acordo com a estação e ditadas pela moda passageira da estação seguinte.

Sobre estampas, vivemos em país tropical. Siga estas tendências! Não busque aqui o que não entra no comércio varejista ou que está fora de qualquer tendência nacional.

E por favor,  NÃO CULPE A CONFECÇÃO por não encontrar a sua cor ou sua estampa predileta. Nós não somos fabricantes de tecidos!

Como se já não bastasse este problema, existe ainda o fator dos aviamentos que são muito limitados quando o assunto na composição é a cor.

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