terça-feira, 4 de dezembro de 2018

Traje de Flamenca X Traje de Baile

Antes de iniciar a reflexão quero dizer que o figurino (traje) é um complemento que, aliado a iluminação, vai ajudar na compreensão daquilo que vai interpretar.  Hoje em dia usa-se qualquer roupa. Em particular, umas sequer trazem bom efeito em cena, mas isso é gosto do artista que, sem as devidas referêcias e bom senso, usa a bel prazer na maioria das vezes satisfazendo seu ego sem se importar com aquilo que será visto pelo público. Às vezes é isso mesmo que o artista quer, chocar. Artista, quer queira ou não, é formador de opinião.

Para aqueles que se preocupam com a composição do figurino para seu baile, provavelmente deve estar seguindo algumas destas dicas a seguir. Flamenco é uma arte democrática e, por suposto, qualquer forma física ou idade independe dos ditames do comércio. Sobre a cor e estamparia já escrevi outro artigo expondo o que é louvável pensar por conta do nosso mercado de tecidos disponível.

Quando se conhece bem o palo e sua origem regional já terá um bom veículo para inspirar como será seu traje. Fora isso, como já mencionei no início,  estão usando de tudo sem nenhum critério. Quando muito, a aparência espanholada.

Traje de nesgas

Traje de Flamenca são aquelas roupas “inspiradas" naquilo que se refere ao Flamenco e de tudo que se vê de forma estilizada. Normalmente usado em passarelas, em desfiles e por cantantes porque são apenas uma fantasia, seja ela tradicional, moderna ou contemporânea, porque não tem as movimentações da dança que, para quem pratica, sabe que exige liberdade de movimento. Para os homens se institui o tradicional terno sem a gravata. No lugar usa-se uma echarpe, lenço liso ou estampado que se conhece como “pañuelo" e pode ter vários  tamanhos e de diversos tecidos. Para as mulheres são  apenas três  bases para o vestido que pode ser “volantes de capa" (com babados a escolher tamanhos e quantidades de fileiras), “canastera" (com babados grandiosos e ligados uns aos outros por franzidos logo abaixo) e de “nesgas" (entre as costuras se coloca um triângulo com o tamanho desejado).

Modelos canasteros

No caso dos vestidos, costumam usar como base o vestido tubinho tradicional que dá, inclusive, o famoso formato sereia (ou “sirena" em espanhol). Este modelo é muito usado até hoje por vários estilistas nas atrizes durante a entrega do Oscar. Modelo que é justo da cintura seguindo a forma dos quadris e bumbum e acabando justo nos joelhos...por isso é chamado modelo sereia. Muito comum em  batas de cola, mas que só servem para cantoras de coplas e não para bailes. E este erro tem sido constante por aqui por conta da ignorância dos ditames para a dança.

Em vários artigos que escrevi sobre batas de cola, menciono a bailaora Inmaculada Ortega a quem sigo como estudante de flamenco e com quem me aconselho nos diversos tipos de batas de cola, que menciona poder bailar com qualquer bata e que sua modelagem, tipo de tecido, tamanho e quantidade de babados vão interferir no resultado de sua dança por conta do peso e da mobilidade no modelo escolhido para confecção.

Modelo sereia

Os Trajes de Baile, como diz o próprio nome, é  para dançar. Ou seja, possui modelagem diferenciada para a dança. As inspirações vêm do conhecimento histórico do palo a representar, da letra cantada ou mesmo inspirados nos Trajes de Flamenca.  "Inspirar" não significa "copiar", inclusive, a modelagem. Precisa de todos os devidos ajustes para a dança. Há que se usar do conhecimento da modelagem para adequar os decotes, mangas e cavas e de onde partirá a roda da saia, pois o modelo sereia só  servirá se for confeccionado em malhas com um bom teor de elastano haja vista que os movimentos de pernas são amplos e o detalhes de “não segurar" a saia para sapateado. O único detalhe sobre o modelo sereia é  que ele pode ser ajustado, no mínimo, até o quadril e usar a medida do quadril para seguir até os joelhos. Além disso, muitos dos tecidos podem não servir para a dança. E mais, as roupas dos desfiles são criados PARA DESFILES e tem custo muito elevado por se tratarem de exclusividades. O início da roda da saia pode começar pela cintura, metade da altura entre cintura e quadril, a partir do quadril, do meio da coxa ou mesmo a partir dos joelhos. Dependerá do que fará na sua dança...

Volantes de capa

Demais, pode-usar as mesmas inspirações de saia citada no Traje de Flamenca. Um exemplo restante, mas que faz uma assinatura em quase todas as suas roupas, são as saias usadas pela bailaora Sara Baras que usa demasiada roda em seus vestidos lembrando muito as saias de Isadora Duncan, dançarina precursora da dança moderna. Neste caso, este tipo de saia acabou se tornando uma marca nas roupas usadas por ela e que tem característica movimentação usada em seus bailes.
Pañuelo tradicional comumente encontrado amarrado no pescoço de quem dança
Para os homens não existe tanta restrição. Ou estão totalmente adequados a modernidade ou usam o típico traje inspirado nos toureiros. Aquela calça de cintura alta e justa no corpo usado com tirantes (suspensórios), opcional um colete curto e, às vezes, um bolero simples. Todos eles seguindo a estética da alfaiataria. Torna-se visualmente luxuoso quando possui bordados típicos da Andaluzia.

Traje antigo de bailaor

Então é mesmo usar destes conhecimentos e do bom senso para compor seu figurino e não  cair no vexame do exagero, dos modismos passageiros ou da falta de conhecimentos caindo numa típica estilização espanhola.

Traje atual dos bailaores

E então, onde você se enquadra?
Na dúvida, consulte gente especializada no assunto. Vivemos um momento em que é difícil expor o que se pensa, pois tudo está polarizado demais. Ou você está à favor daquilo que te expõe ou será radicalmente contra. E com isso, muitas vezes te colocam como inimigo do momento. Isso é muito ruim quando novatos profissionais são apoiados por profissionais experientes apenas para manter seu fluxo de contingente nos eventos que fabricam durante o ciclo anual ou mesmo por obter alguma facilidade financeira em seus figurinos desmerecendo sim o profissionalismo daquele estilista ou confecção que, para não perder cliente, acaba cedendo ou "oferecendo" este tipo de vantagem.

A roupagem nas danças de matriz étnica, como o flamenco no caso, também faz parte do processo de aprendizado na composição final de seu trabalho. É a cultura de um povo que não é a sua. E entender e respeitar sua história é o mínimo a fazer para não cometer erros graves. Imagine-se na Espanha pedindo "aquele pente grande que coloca na cabeça e que coloca uma renda grande como véu". Ou ainda,
"quero um vestido de cigana espanhola com bolas grandes, um xale espanhol para dançar que não seja muito grande" ou "quero aquele leque grande". Garanto que, mesmo traduzido para o espanhol, não saberão muito o quê te oferecer por você não se referir com precisão a que dança se refere e o quê realmente precisa  para seu baile. Como lojista, vão te empurrar qualquer coisa espanhola para vender mesmo e ainda vão dizer que está lindo! Cansei de ver alunos trazerem vários artigos folclóricos achando que, por ser autêntico espanhol, que é para baile flamenco. E isso ainda acontece nos dias de hoje!

Xale espanhol (mantoncillo)
serve apenas para adorno

Mantón para baile flamenco

Pelos mesmos erros na falta do conhecimento da cultura de um povo é que muitos estrangeiros ainda acham que Buenos Aires é a nossa capital. Portanto, estude a cultura de sua dança e aprenda a  diferenciar Traje de Flamenca e Traje de Baile, acessórios e etc. Ou, no mínimo, respeite e consulte quem realmente conhece. Não é feio e nem vergonhoso assumir que não conhece aquilo que quer. Mas será estremamente ridículo se colocar como sapiente...principalmente diante de seus alunos...

Pense nisso.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2018

Pronta Entrega ou Sob Medida?

Há mais de 25 anos trabalho com figurinos de dança. Enfrentei e ainda enfrento a ignorância de meus contratantes quando o assunto é prazo e satisfação por não conhecerem aquilo que relatarei abaixo. De alguns anos pra cá, confecções amigas surgiram e a maioria trabalha com figurinos prontos e diversas  coleções sugeridas segundo aquilo que o mercado textil oferece. Compram a peça de tecido inteira. Cada peça fechada costuma ter uns 80 a 100 metros de tecido. E pode até ser peça única; o que pode dar um ar de exclusividade na produção de uma coleção. Poucas trabalham com alfaiataria ou com figurinos sob medida. Como decidir o que empregarei no meu espetáculo? Com quanto tempo devo pensar nisso? Quero exclusividade ou coleção pronta? O quanto estou disposto a investir? O quê é o correto a fazer?

Estas deveriam ser perguntas a serem respondidas na hora de pensar nos figurinos.

Qualquer roupa de "pronta entrega" deve ser entendida como diz o nome, pronta para usar sem muitas opções de escolhas a não ser cores, estamparias e modelos. São roupas confeccionadas previamente com medidas pré estabelecidas pelo comércio de roupas. São os famosos P, M, G, GG  e etc que fazem parte das medidas ditas "padrão". E os ajustes costumam ser cobrados por fora quando a confecção ou loja dispõe deste serviço . Algumas lojas até oferecem alguns ajustes básicos como bainha em função do comprimento. Mas na maioria das vezes apenas tem direito a troca por outro tamanho para adequar a roupa ao seu corpo. Nada mais que isso. Por esta razão o preço é bem acessível.

Uma das diversas tabelas
na confecção de
Pronta Entrega

A facilidade deste tipo de roupa é que basta ter sua simpatia pelos modelos prontos e que você acha se enquadrar no seu trabalho para ilustrar e complementar sua dança de acordo com aquilo que ela representa. A maior vantagem deste tipo de roupa é o ganho no tempo; mesmo que seu show se pareça com o de outros grupos e academias por conta do uso de mesmos modelos. É o preço a se pagar se isso não lhe incomoda.

A roupa sob medida costuma ser mais cara e leva muito mais tempo para a confecção porque o processo deve levar em conta estes dados:
1) escolha dos modelos em função da dança a ser representada e se serão iguais ou diferentes entre si
2) escolha da confecção para estudar preços e tempo de serviço
3) em função dos modelos escolhidos, estudar cores, estampas e os tecidos disponíveis pra isso.
4) retirada de medidas e confecção de moldes personalisados (isso é o que mais encarece por não passar pelo processo dos tamanhos convencionais do pronta entrega)
5) corte, montagem e 1a prova (normalmente é só o esqueleto da roupa ainda muito crua)
6) 2a prova com os ajustes da 1a prova para montá-la quase toda
7) 3a prova com a roupa quase toda pronta para certificar medidas e ajustes antes de colocar os acabamentos e fazer as últimas alterações
8) prova da roupa pronta para ver se não há mais ajustes
9) entrega da produção

Produção Sob Medida levará
em consideração as
particularidades de cada corpo

O serviço sob medida leva de 4 a 5 vezes mais tempo do que o habitual. Necessita-se pensar nele de 4 a 5 meses antes para que o tempo hábil seja bem aproveitado e não se pule etapas. Ou seja, supomos que seu show seja em dezembro. No mínimo você deverá começar ver seus figurinos, no prazo máximo, em agosto.

O que é difícil compreender pelos contratantes deste tipo de serviço é que, em se pulando alguma etapa acima incluindo o tempo para escolher, sempre terá um resultado insatisfatório porque ocorrerão naturalmente erros. Raríssimos são as vezes que se consegue resultado satisfatório abaixo deste prazo. E neles não deveria ser colocados a responsabilidade destes erros na confecção ou em quem os produz. Quando a leva de roupas ainda tem figurinos diversificados demais, precisa-se de uma equipe grandiosa para atender a demanda e isso aumenta o custo da produção. Este é o serviço mais caro para roupas, mas é o único capaz de dar sua assinatura pessoal em seus figurinos e deixá-los únicos e distantes da pronta entrega.

Se você quer um portfólio com os croquis, pague por essa exclusividade e os tenha para sempre só com você.

Embora a modelagem para dança, seja ela qual for, tenha suas peculiaridades que a difere da roupa convencional e de uso diário, um figurino sob medida pode ser comparado como comprar um vestido de noiva pronto ou fazer um que só você tenha. Por mais que se alugue um vestido, as lojas te darão direito, no mínimo e segundo o valor que se paga, a 2 provas para ajustes.

Existe a possibilidade de misturar uma modelagem pronta e fazer adaptações. De qualquer forma, como no vestido de noiva alugado, precisará da escolha do modelo, da prova da roupa, da 1a prova para ver resultado do ajuste, da 2a prova e da prova final dentro de um tempo hábil para isso.

Bem diferente da pronta entrega, não é mesmo?

Se vale a sugestão, pense bem antecipadamente em seus figurinos e a forma de tê-los (pronta entrega ou sob medida) para que não hajam falhas e a culpa não recaia na confecção ou na produção em caso de insatisfação com o resultado. Em caso de tempo curto, terá que abandonar suas idéias pessoais e ir para a  pronta entrega mesmo.

Pense nisso...

domingo, 11 de novembro de 2018

Instrumentos no Flamenco, além da convenção

Depois da tradicional guitarra espanhola que conhecemos como violão e as castanholas, desde as inovações trazidas por vários músicos flamencos, basta lembrar a inserção do Cajon por Rubem Dario trazido pelo saudoso e grande guitarrista flamenco Paco de Lucia,  vários outros instrumentos estão se aliando e completando a esfera musical abrilhantando os shows.


A intenção deste artigo é lembrar que, por mais exímio que seja tal músico e seu instrumento, inevitavelmente precisará estudar e compreender as escalas musicais do flamenco da mesma forma que o convencional guitarrista sabe. E  será mais profundo ainda quando tiver que acompanhar a dança.

Então,  estes músicos de quaisquer instrumentos, sejam aprendizes ou profissionais, precisam aprender a estrutura do flamenco como nós artistas convencionais (cantaores, bailaores e guitarristas) sabemos.


Existem outras culturas onde a semelhança estrutural facilita a absorção e compreensão do flamenco. Portanto, é sim possível quaisquer instrumentos além da convencional guitarra para acompanhar shows flamencos.


Declaro não ser músico e as minhas referências vêm do convívio com esta nova fase. E aos amigos músicos, se falei alguma bobagem, me perdoem e peço humildemente que complementem meu artigo.
Vocês merecem minha admiração e respeito.

sábado, 10 de novembro de 2018

Cor na composição de figurinos pra dança


É muito comum nos dias de hoje que muitos coreógrafos em seus delírios acabem imprimindo, também, suas idéias sobre o que imagina como figurino para seu trabalho. Nós do ramo das roupas, quero dizer, nós os Figurinistas, realmente levamos muito em consideração estas inspirações e as adaptamos à dança quando viáveis.

A maioria cabe sim. Mas o erro recorrente é escolher cores sem conhecer o que dita o mercado têxtil nacional. Tentamos avisar e pedir para trocar a cor (ou cores) por conta disso. Porém,  muitos coreógrafos são irredutíveis achando que confecções e o próprio mercado têxtil tem que atendê-los.

Com isso, não é difícil que muitos colegas de confecção de figurinos percam horas e dias atrás de algo que possa favorecer a idéia do contratante e, na maioria das vezes, nós somos colocados como profissionais desqualificados por este detalhe. Detalhe que o contratante não remunera pelas horas, às  vezes dias, que perdemos para isso. É um total desrespeito ao profissional que trabalha para satisfazer seu cliente. Fora o fato da tão famosa "pechincha" porque o cliente quer luxo a preço de lixo.

Um figurino não se produz em 45 dias sem conhecer as propostas do mercado têxtil nacional.

Sugiro que acompanhem as tendências de cores para cada estação aqui, e não no exterior onde buscam suas inspirações.  No exterior (no caso a Espanha em se tratando de Flamenco) existe e se alimenta de um mercado têxtil voltado para seu folclore durante todo o ano letivo. Nosso MT (mercado têxtil) mantém nas prateleiras a convenção do ano e substitui as de fora da estação pelas novidades. Em se tratando de moda aqui, isso ocorre com frequência durante o ano todo! No máximo manterá durante o ano aqueles tecidos de uso cotidiano para que seu comércio não fique estagnado. São tecidos comuns como sarja, tricoline, viscose, oxford, cetins variados e tantos outros comumente usados. Nas malhas, somente os de moda...

Muita coisa mudou para pior na qualidade de algumas malhas porque aqui elas não são voltadas para a dança.  São para o uso cotidiano,  para vitrine e esportes. Malhas essas que são muito pesadas, às vezes com muito elastano ou muito finas. O preço normalmente é cobrado por quilo e o rendimento varia em função do tipo de malha e pode sofrer variação até por causa da pigmentação. Algumas roupas saem caras por conta disso. No caso das rendas, muitas até melhoraram. Porém,  sem muita variedade de desenhos ou cores. Sobre elas, está  quase extinta aquelas mais encorpada...

"Ah, é só comprar na fábrica de malhas!" Já ouvi isso de muitos clientes ignorantes. Uma produção pequena não comportaria um pedido EXCLUSIVO numa fábrica.  O preço quase triplica e duvido que a produção queira sair de seu orçamento para apenas satisfazer sua idéia de cor em sua composição. O que dirá isso em academias onde os alunos custeiam a produção.

Componha sua idéia antes sim, mas consulte o MT ou peça uma "consultoria" com figurinistas para ver o quê vem pela frente em termos de MT para encontrar algo que lhe ajude nas suas idéias. Não precisa saber costurar, ser estilista ou o que o valha para entender do mercado têxtil.

Fica o conselho... na dúvida, caia nas cores padrões que sempre existirão no mercado. Cores secundárias variam, mas se encontra. Já as de "tom sobre tom" será de acordo com a estação e ditadas pela moda passageira da estação seguinte.

Sobre estampas, vivemos em país tropical. Siga estas tendências! Não busque aqui o que não entra no comércio varejista ou que está fora de qualquer tendência nacional.

E por favor,  NÃO CULPE A CONFECÇÃO por não encontrar a sua cor ou sua estampa predileta. Nós não somos fabricantes de tecidos!

Como se já não bastasse este problema, existe ainda o fator dos aviamentos que são muito limitados quando o assunto na composição é a cor.

#cornamoda
#cornofigurino
#estampariaparadanca
#tendenciadamoda

domingo, 4 de novembro de 2018

Onde está o flamenco?


O título deste artigo visa trazer uma reflexão individual de sua realidade e sua consciência no aprendizado, desenvolvimento, ensino e definição do flamenco. Darei enfoque para a dança que é o caminho que persigo, insisto e estou.

Demorei a entender que estudar dança, seja ela qual for, sempre será um trabalho árduo, com muita dedicação, esforço pessoal onde sacrifícios são feitos e uma constante renovação de muitos colegas e parceiros, mas com raros amigos verdadeiros  e muita solidão. Se cresce sozinho e taciturno. Ninguém te diz quando não está bem ou errado, alguns te indicam ou sugerem estudar mais e pouquíssimos  te dirão quando está totalmente distante da realidade e querem te ajudar a crescer e melhorar. Não dá pra evitar o processo natural da vaidade e egolatria nestas descobertas e que se acalmam quando descobrimos o equilíbrio .

Frequentei muitos cursos diferentes achando que isso me faria melhor, mais fluente na dança e mais "visto". Mas observei que, em particular, fazer muitas aulas diversificadas nos estilos e com diversificados profissionais por curtos períodos não me trouxe desenvolvimento, mas apenas lembrança de trechos de aulas ou coreografias.

Técnica não é diversidade e quantidade de professores, mas a repetição de poucas linhas a seguir e repetir até dominar.

Analogias à parte, a dança é um universo extenso e delimitado por um conteúdo  dentro desta extensão.  Explorar-se ao nível de expressar melhor o que quer dizer a música é o objetivo. Quanto maior minha consciência corporal na dança,  no caso em questão é o flamenco, mais fácil e rápido o resultado será.

Levei um tempo pra entender que uma coreografia não é uma colagem de movimentos que cabem no compasso da música. Mas movimentos harmônicos entre si e simbióticos com a música quase que brotando sem muito pensar. Eu fazia o que hoje chamo de colcha de retalhos onde costurava passos de um artista com os de outros e remendava com algum trecho coreografado por outro. Fui um verdadeiro Victor Frankenstein por um tempo até descobrir que isso não é arte e muito menos flamenco. Melhor seria se tivesse assumido não saber montar uma coreografia e usar uma pronta delegando sua autoria ao seu tutor. No máximo alterar alguma coisa e mencionar a adaptação e imprimir minha alma nela.

Flamenco é individual, solitário por natureza e coletivo na quantidade. É uma arte de total mergulho em si mesmo e uma forma de perceber a vida. Expôr isso é o grito, a explosão e êxtase da emoção.  O "como" vai expor é que é o problema. E fica a pergunta: exponho pra ter alguma aprovação artística do público ou exponho pra fazer resistir o flamenco? Isso engloba tudo! Harmonicamente falando, é figurino, luz, som, cenário (nem sempre precisa de um se tiver uma boa iluminação), música ou músicos, eu, o elenco e o flamenco.

O flamenco é uma linguagem artistica em modo andaluz e que alcança qualquer etnia pelo encanto e sedução de sua força,  mas não se sujeita a existência quando sai por entre os dedos se suas emoções não são respeitadas a fundo. São mais de 30 anos em busca de uma explicação para estas transformações que ele causa nos artistas que realmente são picados pela mosquinha do flamenco. Não é uma moda na roupa ou numa dança modificada, tradicional, contemporânea ou fusionada ou mesmo na capacidade técnica dos músicos ou de quem canta. É uma assinatura que borbulha no sangue e extravasa pelos poros aquilo que a alma clama para não guardar numa somatização de sentimentos mais contidos ainda.

Menos é mais. Mas nem sempre o mais ou demais conseguirá se igualar a potência que tem o menos dentro desta esfera do flamenco. Então quais filtros se deve usar? Eu ainda não sei responder e talvez não consiga nunca.

Qual medida usar então? Eu uso o coração.  Quando vejo um trabalho, esqueço meus preconceitos e deixo a arte mexer comigo. Se der aquele arrepio na espinha, eu gostei. E isso não se relaciona com ser ou não moderno, atual, na moda do momento ou mesmo ter excelência técnica. Mas sim aquela identidade comum que esta arte causa quando os artistas encontram suas emoções e extravasam em seus dotes artísticos. Técnicas são para servir a emoção no flamenco.

Isso pra mim é Flamenco. Quem canta, toca ou dança precisa se libertar das barreiras para que vejamos e sintamos essa explosão, essa fulgaz emoção transbordar e nos fazer arrepiar a espinha de novo.

E pra você, onde está o flamenco? Na roupa, no tipo artístico ou na dança?
Onde?


domingo, 14 de outubro de 2018

Compondo figurinos no Flamenco



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Não é tão simples assim. Não basta se travestir de espanhola seja qual for o modelito que se compra.

Há muito vejo roupas bonitas e feias em cena. Grifes e figurinos sóbrios perambulam pelos palcos de forma a atender os anseios de quem coreografa ou de quem se imagina no palco. Nem respeitar o biótipo de quem dança estão levando em consideração.

O erro mais grave aparece quando a roupa parace ser mais importante que a dança. E pode piorar quando ela atrapalha a dança na sua execução.

Não há mistérios para compor um figurino flamenco se levar em consideração os parâmetros do baile a ser executado; mesmo que o componha com a cara do séc. XXI.

Depois do período em que grandes estilistas assinaram figurinos de grandes companhias de flamenco (eu diria que alguns assassinaram a obra) muitos se libertaram e passaram a seguir os ditames dos desfiles de moda flamenca. Não é ruim, mas a passarela não é o palco da dança. Ali existem idéias muito boas e até de combinações de estamparia e materiais que jamais ousaríamos fazer. Digo sempre que estes desfiles servem como inspiração para compor um figurino DE DANÇA. Sim, em caixa alta mesmo! Ou apenas de seguir as modas das grifes locais que passam e não se renovam.

Não há limites na passarela da moda. Diferente da dança que tem alguns limites a serem observados.
A criatividade está no ar e nos libertarmos do jargão preto e vermelho de anos passados no flamenco aqui no Brasil. Aliás, pra mim o vermelho é a única cor "neutra" no flamenco. Ela parece conter, em sua essência, o turbilhão de emoções desta arte.

Porém, é preciso encontrar um equilíbrio do figurino com o palo exibido. A própria natureza dele já sugere a que tipo de roupa bolar. Às  vezes até a letra sugere se pensar em coreografar baseado numa letra. É onde erram com frequência na composição artística da roupa. Às  vezes vejo gente com roupas lindas, mas distante do palo a ser executado.

Não adianta mais dizer que o importante é a alma do palo. Então dance nu! É incompreensível bailar por Alegrias totalmente de preto e sem nenhum acessório mais colorido para remeter às inspirações que este palo bulicioso tem em sua natureza. Da mesma forma é bailar um Martinete trajado de amarelo com lunares rosas onde em nada este padrão contribui para o drama deste palo. São apenas exemplos extremos do que vejo por aí.

Sem falar nos erros graves com o uso do zíper invisível em malhas. Aliás,  este zíper nem se recomenda para a dança alguma! Um bom figurinista irá saber como camuflar aquele mais grosso que suporta os arranques das trocas rápidas e dos movimentos fortes da dança quando usado nos tecidos planos (subentende-se sem o elastano típico das diversas malhas).

O decote tem um segredo ótimo pra dança para quem gosta de abusar. Quanto maior o decote na frente, menor deverá ser atrás e vice versa. Muitas vezes seguir a tradição nos decotes resolve todos os problemas da roupa.

Enfim, seja diferente, original ou mesmo igual com figurinos de "pronta entrega", mas não  peque na roupa.

Gosto não se discute, mas técnicas sim.

Flamenco é democrático também com os figurinos. Sejam bregas, estilosos ou alta costura, há espaço para todos, mas confecção pra dança não é o mesmo para o uso diário nem mesmo para a passarela. Aprendam a adaptar e se sentir seguros e confortáveis com seus figurinos sempre levando em consideração o palo que representam e os ditames necessários da modelagem para a dança. Nem sempre a malha "resolve" tudo; que é o que parece nestes últimos anos. Malha apenas soluciona alguns problemas, mas acaba apenas virando moda de época e dela só sobra o que serve para a dança.

Moda passa...


sexta-feira, 12 de outubro de 2018

Novidade, estigma ou desinformação? Farruca

Quem cursa dança flamenca raramente encontrará livros contando a história dos bailes. Aprendemos que os registros históricos se baseiam na evolução do cante que é considerado por muitos a parte mais importante desta arte e onde se tem os primeiros registros do que conhecemos como flamenco. Ainda salvo as fotografias muuuito antigas datadas em torno de 1850.

Depois de tantas transformações nos três pilares básicos do flamenco (cante, guitarra y baile) não é difícil ver de tudo um pouco. Incluo neste pensamento até aqueles palos que não se bailava e que agora entram na categoria performática dos dançarinos mais modernos onde é  visível a teatralidade fusionada com elementos da dança contemporânea. Isso não é de tão ruim. Eu vejo a dança no flamenco como a materialização daquilo que se toca e canta. Então esta novidade é mais que bem-vinda desde que não se distorça a intenção do palo.

Olhando no passado, alguns bailes eram restritos aos gêneros e pouco se via de diferente até que os artistas dos anos 70/80 começaram a dar um novo olhar para eles. Falo de Mario Maya, Antonio Gades, El Güito, El Mimbre, Cristina Hoyos, Merché Esmeralda, Antonio Canales e tantos outros que nos ajudaram a chegar ao que temos hoje na dança flamenca. Eles deram os primeiros passos na "abertura dos portos" para as inovações.

Lembro de uma entrevista de Antonio Gades falando de seu mestre, Vicente Escudero, falando dos gêneros. Algo como "as mulheres possuem suas formas físicas arredondadas e portanto sua dança está carregada de desenhos arredondados, de arabescos desenhados no ar e os homens possuem sua forma física mais angulosa e retilínea como uma espada que corta o ar". Achei isso interessante como forma de entender determinados traços no baile flamenco.

E a Farruca, onde entra nisso? É um baile renascido de antigos cantes galaico-asturianos, segundo dizem alguns historiadores, e que leva as inspirações musicais do tango de Málaga. Mas foi uma forma de baile praticamente masculino trazendo as diretrizes que dizia Vicente Escudero sobre o gênero.

O interessante na dança hoje é  ver como a gama de novas bailaoras ainda visam a Farruca com trajes masculinos como se fosse a única maneira de interpretá-la. Eu vi Cristina Hoyos no Theatro Municipal do Rio de Janeiro fazer sua Farruca num período onde grandes estilistas da moda desenhavam os figurinos das companhias flamencas. Cristina surgia em cena se desenrolando da cortina do teatro com um vestido onde sua saia era composta por duas camadas de tecido pliçado. No início achei um absurdo aquele palo com vestido! Mas percebi que ela não descaracterizou a essência dele e comecei a apreciar. Foi vendo Cristina que meus olhos se abriram para a idéia da roupa na dança flamenca além do estilismo espanholado.

Cristina Hoyos

Quem disse que Farruca tem que ser assim quando uma bailaora a interpreta, de pantalones? Então tive o prazer de ver Imaculada Ortega fazer o mesmo... a Farruca trajada com vestido.


Não sou contra a idéia que toda bailaora faça sua Farruca de calça, mas trago para a reflexão da composição do figurino para a dança flamenca de uma forma geral.

Basta ver La Singla e Carmen Amaya bailando por Alegrías e de calça sem perder a assinatura do baile.

Antônia La Singla

Ou melhor e mais perto de mim! Ver ela sendo cantada e bailada por Renata Chauvière aqui no RJ!


Preconceito ou estigma eu não sei. Mas é  como me apontar o dedo porque bailo com bata de cola ou com o mantón de Manila.

Eu fiz uma Farruca com bata de cola! E aí?


Eu e Carlos Máximo
Farruca

Fica mais uma dica...não pensem a dança flamenca como uma coreografia que leva uma fantasia espanhola. Mas que a roupa compõe e arremata a idéia do seu baile. É  aonde eu questiono o uso da roupa da moda. Nada contra, mas tem que estar afinada com o palo!

Parafraseando a bailaora paulista Ana Mazargão com seu trabalho digníssimo sobre o cante numa coreografia "Vamos escuchá?" digo, "Vamos estudiar" o figurino no flamenco?