segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

TRADIÇÃO, CONSERVADORISMO E MODERNIDADE NO FLAMENCO.

É fato que ao longo de sua história o Flamenco passou por fases que deram os diversos ramos de uma árvore genealógica extensa. Surgiram novos palos, novas danças e novos instrumentos foram incorporados. Mesmo assim a sua essência continua intocada e é isso que faz do Flamenco um estilo que perdura e avança no tempo. A tradição torna a cultura perpetuadora dos ensinamentos e de sua formação inicial ainda que registrada verbalmente e passada entre familiares e amigos próximos de geração em geração. É uma forma de deixar intacta a raiz de um movimento seja ele qual for, sua forma de pensar e agir, suas vestes e costumes locais. Assim se faz a memória da história. Seus registros possibilitam contar seu crescimento. O conservadorismo acaba se tornando hostil às inovações sociais, políticas e culturais impedindo o avanço em todos os sentidos inclusive o tecnológico. Existem várias culturas de base religiosa que se mantém como nos primórdios e como na Idade Média por acreditarem nas filosofias empregadas. A modernidade leva em seu seio toda esta bagagem anterior, mas repleta de novos horizontes, novos caminhos e perpetua o ensinamento aliado ao avanço da própria humanidade, da própria ciência, da tecnologia e no desenvolvimento do pensamento. E tudo com a cara dos tempos atuais como o próprio nome já diz. Acredito que o Flamenco está nesta fase onde rompe barreiras com o conservadorismo, mantém a tradição e se renova em vários aspectos acabando com tabus e dogmas de tempos passados. Vemos o cante bem renovado e com mesclas de estilos fora do Flamenco, o violão repleto de suingadas de outros gêneros e acompanhado de outros instrumentos nada flamencos e a dança completamente influenciada e fundida com vários outros estilos acadêmicos e folclóricos. Quebrou-se o tabu dos estilos masculinos e femininos de dançar levando-se em conta que a alma, a essência é primordial nos gêneros masculino e feminino na hora de executá-la. A soleá não é só de bailaoras, a alegria não é só com bata-de-cola e só para mulheres assim como a farruca não é só de homens e de calça comprida e em qualquer lugar pode-se tocar palillos (castanholas). Assim o é em todos os outros palos flamencos. Desde então a Arte Flamenca se renova e dá mais espaço para a criatividade, para a modernização e para a perpetuação de si mesma e reafirma em seu posto de mais um tipo de dança com ares andaluzes como já são o ballet, o jazz , o tap-dance e o irish dance. A alma? Onde está? É ela a mola propulsora de tudo isso e sempre esteve no mesmo lugar: dentro de nós artistas e admiradores. É e será sempre aquele ser que se adapta, se transforma e não perde seu caráter, sua essência como no princípio de tudo. As plantas nascem, se multiplicam, se adaptam as intempéries do universo e continuam dando sementes e flores. Esse é o Flamenco como uma rosa que continua com seus espinhos, mas tão bela, perfumada e aveludada cada vez que brota em uma nova espécime híbrida nos dias de hoje.

Irmãos CARVÃO e DIAMANTE

Você já recebeu alguma crítica de alguém? Que tipo de crítica você ganhou: criativa, construtiva, destrutiva, positiva ou negativa? Como você reagiu e o que achou daquilo? Refletiu sobre a informação? 

Pois é. O mal da maioria das pessoas é não saber escutar uma crítica seja ela qual for. Acredito que todas elas são de enorme valia para reflexão de um trabalho. Saber analisá-las é muito importante e saber diferenciá-las também o é. 


Quando observações são feitas em decorrência de algumas falhas o resultado pode ser melhor ainda se a humildade estiver presente e a pessoa aprimorar seu trabalho com a crítica feita. Se quem fez é dominante no assunto, aí vale mesmo para e pensar. A crítica é uma mensagem carregada de observações que julgam seu trabalho artístico, literário ou científico. Assim o artista acaba por formar opiniões... E assim acredito no que fazemos quando estamos no palco. 

A Arte Moderna é muito abstrata e conceitual na maioria das vezes. Não basta olhar de imediato e julgar. Se faz necessário entender o conceito e depois sim, fazer o seu julgamento. Existem muitas manifestações que julgamos de imediato por conta deste comportamento.

Lembram do antigo jargão da propaganda do desodorante “Impulse, a primeira impressão é a que fica”? Ou ainda "não se deve julgar um livro pela capa". É assim que acabamos por ver e julgar de imediato as fotografias por exemplo. Aqui mesmo no blog eu tenho uma matéria em que critico algumas idéias de moda flamenca, pois ainda não vi nenhum artista do meio usando aquelas criações. Uma peça teatral, musicada ou não, quando tem um tema precisa ser avaliada segundo o contexto que inspira a obra. E aí sim vale qualquer crítica a direção artística, seu criador e sua obra.

   

Auto-crítica é esta capacidade de “se ver diante do espelho da alma e avaliar seu reflexo”. É difícil, mas não impossível, pois admitir erros é complicado quando não se tem o interesse do aprimoramento de si mesmo. Essas arestas que fazem uma pedra de carvão ainda ser bruta é que faz a diferença quando lapidadas. Esta lapidação transforma aos poucos a pedra de carvão em diamante e seu polimento gera o brilho. Esta deveria ser a meta principal do ser humano. Mas ainda existem pessoas que preferem continuar sendo uma simples pedra de carvão. Esta é a natureza humana... 

É este polimento que me impulsiona para frente mediante os reconhecimentos que faço em minha vida. Não nego que às vezes vem de forma muito dura e outras bem suaves, mas sempre reflito e acabo tentado o polimento. Muitas vezes amigos me mostram. Outras vezes a própria vida que se insinua. E vou seguindo sempre pra frente. Na maioria das vezes os que não me gostam é quem fala sem conhecer os fundamentos do meu trabalho; o famoso jargão do “Impulse, a primeira impressão...”. 

Só enxerga quem quer... eu tenho conseguido um pouquinho. Ainda estou um pouco “míope” pra algumas coisas, mas como falei, de alguma forma alguém me coloca um óculos e vejo melhor. Ainda não sou um diamante, mas também já não sou mais aquela pedra de carvão. Acredito que sou um cristal bruto, lapidado pelo tempo, pela aceitação das falhas que vou lapidando e polimento das minhas virtudes.

Um dia me transformo em Diamante.

sábado, 16 de fevereiro de 2013

Os Calons: Ciganos da Península Ibérica

“Calon”: termo designado para identificar os ciganos oriundos da Península Ibérica: Portugal e Espanha. Em Portugal são chamados de Calão e possuem comportamentos similares aos espanhóis porem não são dominadores do Flamenco e muito raramente se utilizam do mesmo para suas festas. Utilizam-se das suas “guitarradas” (seu jeito de fazer festa) e suas músicas e danças são semelhantes as que vemos aqui no Brasil. Os Calons, cigano da Espanha principalmente o andaluz, são dominadores da Arte Flamenca em todos os aspectos. Costumam fazer suas festas , ou “fiestas” como eles chamam, sempre regado a vários ritmos festeiros flamenco. Em alguns de seus rituais é comum o uso de elementos do repertório flamenco como a Debla, Toná, Saetas (em épocas de semana santa), Romances, Rumbas e Tangos nas bodas de casamento, Alboreá ao alvorecer e quase todo o repertório bailável do Flamenco em suas “fiestas”, seus “bródios”. Alguns ritmos como a Zambra está quase em desuso e é ligado ao calon que tem suas raízes de origem marroquina ou egípcia; mais especificamente os granadinos, pois os ciganos catalães tem domínio sobre as rumbas. Os principais “palos” (cantos) flamencos são de origem cigana e por esta razão muitos atribuem o surgimento do Flamenco a eles. É só lembrarmos que o Flamenco tem outras culturas que se mesclaram como a judaica, a espanhola, a hindu e a árabe oriunda do Marrocos e do Egito, graças aos ciganos que absorvem e mesclam as culturas por onde passam.
Existem outros ritmos desconhecidos por nós e que fazem parte do folclore “gitano” (calon espanhol) como La Cachucha Del Zacromonte, canciones de Navidad, La Mosca. Dançadas em roda e em seus respectivos valores de folclore cigano espanhol. Sendo o cigano espanhol a principal base do Flamenco, vale ressaltar que as performances dos artistas “não-ciganos” são muito próximas das executadas por eles. A idéia de liberdade expressiva que eles carregam em sua cultura está impregnada na Arte Flamenca como um todo. O que não se deve esquecer é que esta liberdade foi ampliada e estendida aos artistas não-ciganos, ou payos, na língua dos calons, onde o Flamenco se universalizou e se transformou em mais uma linguagem de dança. Muitos costumam dizer em seus livros sobre o assunto, que o artista flamenco é aquele capaz de cantar, tocar ou bailar como se fosse um cigano. O folclore ficou preso aos guetos ciganos e às casas de shows para turistas, ou Pátios como são conhecidos hoje; o que não impede de ser ver um bom trabalho apesar destes shows serem quase em sua maioria comerciais para os turistas. Os admiradores, ou “aficionados” como se fala na Espanha, independente de serem artistas ou não, procuram as “peñas” (a forma evoluída dos antigos cafés cantantes), tablados e cuevas (em Sacromonte) próprios para a execução do flamenco onde se pode apreciar um genuíno trabalho de raiz, de ciganos e não folclórico-comercial.
E mais, acompanhando a evolução dos tempos, os Artistas Gitanos vêm seguindo a modernização e se atualizam até em suas vestes próprias para baile. Basta ver uma gitana que agora usa roupas mais justas ao corpo permitindo visualizar a sua silhueta. Os calons são muito conhecidos pelo seu temperamento forte e fácil capacidade de se mesclarem a sociedade local atravessando muitas vezes alguns costumes tradicionais; o que não fazem deles menos ciganos do que as outras etnias espalhadas pelo mundo.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

Um sonho antigo

Não dá pra deixar de lamentar a oportunidade que perdi nesta vida aos 16 anos quando ganhei uma bolsa de estudos para Patinação Artística sobre rodas no Flamengo quando patinava no extinto Roller Circus em São Francisco, bairro da zona sul da cidade de Niterói onde eu vivia. Toda vez que vejo os Jogos Olímpicos de Inverno e admiro esta modalidade volto no tempo e me lembro como foi meu contato e as boas coisas que passei neste período. Lembro que saía no sábado para entrar exatamente às 14h quando abria o rinque e saía lá pelas duas da madrugada quando fechava. Só não ia quando adoecia ou quando estavam fechados.
Naquela época um bom patinador ganhava a bolsa e tinha possibilidades de ir para o Holly Day On Nice... meu sonho! Mas não ganhei o apoio familiar por questões financeiras, pois o investimento era alto nas aulas de dança, no equipamento de primeira linha e num futuro que, para minha família, era incerto e curto. Resumindo: eles viam uma carreira curta bem menor do que qualquer outra arte. Por conta disso, me ofereceram lutar Judô e briguei e acabei entrando em depressão. Este tipo de arte estava muito distante do que eu queria. No ano seguinte é que encontrei a arte do qual hoje sou profissional. Acabei por seguir uma vida tradicional, fiz faculdade de Arquitetura e depois enfrentei a tudo e a todos. Tudo que sei e possuo hoje sobre Dança e Figurinos foi com meu próprio esforço e conquista. Abri mão de muita coisa para conseguir chegar onde estou. Nada foi fácil a não ser outra bolsa que ganhei. Nunca mais me esqueço destes dias nas mãos de Sonia Castriotto que me apoiou e confiou em mim. Discretamente comprou algumas desavenças por minha causa com algumas colegas de classe e até mesmo com o grupo ao qual ela dirigia, pois era estagiário e passei logo a membro efetivo mesmo sem estar preparado. Era muita confiança num dançarino ainda verde para o posto. Ela teve lá suas razões para tal e foi apoiada pelo marido e também diretor Eduardo Mallot.
O sonho é um dos alimentos da vida. Pode se tornar um objetivo como o meu. Nunca projetei ou almejei algo que fosse além de conquistar, aprender e ensinar o que sei. Nunca me interessei em ser o melhor tão pouco querer ser o maior. Apenas conquistar este sonho e ser respeitado. Jogar com a verdade e com a honestidade sempre foi e continua sendo difícil, mas precisei me impor e hoje estou aqui, na Dança Flamenca.
A Patinação vai ficar para outras vidas.