De princípio, digo que
qualquer dança já é artística seja a sua natureza acadêmica, de matriz étnica
ou dita popular. Não encontrei em nenhum site nacional algum movimento que
especificasse o que é, qual a sua origem e como se deu o desenvolvimento do que
alguns pregam como “dança artística” seja ela qual for.
Estou há mais de 30 anos no mercado de dança nacional
trabalhando e estudando uma dança de matriz étnica, o Flamenco, e desconheço
qualquer outra argumentação dentro da dança que não seja as dispostas no
mercado. Não, não tenho nível superior em dança e isso não me impede de pesquisar,
refletir e questionar aquilo que o mercado apresenta. Tenho DRT, o que me
confere apto a instruir sobre a dança que ensino e atuo segundo a Lei 6533, e
já trabalhei alguns bons anos no Sindicato dos Profissionais da Dança de meu
estado de forma voluntária.
De algum tempo pra cá os nichos de algumas danças agregaram
ao título convencional o termo “artística”. Na maioria das vezes em nichos de danças
populares.
Sobre danças populares ou étnicas há de se convir que se
estude a história e costumes daquele povo que é seu nativo para entender,
inclusive, as máximas de sua expressão artística; no caso a dança em foco. É
comum dentro da escola tradicional de balé que se estude alguns povos para
futura estilizações dentro de um tema proposto. Estilizar, neste caso,
significa fazer algo que lembre aquele povo com roupas e visuais quase típicos,
músicas com traços do povo representado, gestuais na dança bem como os
figurinos muito próximos do que seria a realidade do povo representado segundo
uma época histórica, seja real ou fictícia mas calcada naquele povo
representado. Isso não quer dizer que aquilo que se representa seja fiel aos
costumes daquele povo, mas apenas traços que podem lembrá-lo. É a Dança à
Caráter da escola de Balé. À exemplos: La Bayedere, Carmen, A filha do Faraó,
Dom Quixote, Copélia e tantos outros balés que simplesmente não são
representações fiéis à cultura de cada povo de referência nas obras
coreografadas.
Na Espanha se referem as danças estilizadas como “Clásico Español”
onde é necessário dominar os outros segmentos de danças do país (Escuela
Bolera, Bailes Regionales y Flamenco) para poderem criar danças espanholadas independente do gênero
musical utilizado. O maior exemplo disso é o famoso Paso Doble que era apenas
um gênero musical para alegrar as touradas, passou a ser utilizado em bailes
populares em duplas (como na nossa dança de salão) até chegar na estilização
que conhecemos coreograficamente hoje onde o dançarino quase sempre representa um
toureiro e a dançarina uma típica espanhola com seus adereços tradicionais.
Esta dança entrou para o ramo das danças estilizadas ou “clásica españuela”.
Desta forma, traço um paralelo com aquilo que conhecemos como
dança africana aqui no Brasil onde se aprende movimentos de algumas danças bem
primitivas de alguns países africanos misturado a passos de jazz, ou afro-jazz,
e a dança dos orixás de religiões afrodescendentes. Embora devamos reconhecer
que a África não é um país e sim um continente com muitos países. Então não
seria errado dizer que a dança egípcia seja africana assim como as danças da
Argélia ou da Ilha dos Açores. Então acabamos por generalizar as danças
populares de um continente a reduzidos movimentos se compararmos com a extensão
territorial do continente e seus países.
E o que falar sobre dança brasileira? Samba? Forró? Chula?
Sertanejo? Sim! Estas e todas as outras danças do país. Todas são danças
brasileiras. Algumas até são ensinadas durante a primeira fase escolar. Quem se
lembra do Côco ou do Carimbó? E a dança dos nosso índios tão esquecidos e
ignorados? Todas são danças brasileiras.
![]() |
Carimbó |
Quem disse que sou o único a pensar sobre danças estilizadas que chamam de folclore? Vejam este artigo sobre nossas tradicionais quadrilhas de festas juninas...
Aonde elas são chamadas de “artísticas” quando apenas são
estilizadas sem o compromisso do folclore? Com isso adentro um nicho muito
vulnerável aqui no país e que começa a se alastrar no estrangeiro por culpa
nossa mesmo. Não existem regras ou mesmo legislação para isso, mas existe o bom
senso e, principalmente, o respeito e a ética a uma cultura que não é a sua e que ainda
existe.
Em vários artigos neste blog remeto aos cuidados que
aprendizes e admiradores devem ter com o nicho da dança cigana que, razão que
desconheço o fundamento, agregou o termo “artística” já mencionado no início
deste artigo. Sem delongas, não adentrarei aos meandros de tantas observações
que já fiz, mas trazer total atenção para aquilo que vendem como “artístico” de
um povo existente, que tem sua própria cultura e costumes muito particulares os
quais não temos total acesso e que, ainda que parcialmente velada aos olhos
daqueles que não a pertencem, não se mostra a não ser pelas facilidades que o
atual quadro de oportunidades oferece para os que são mal exemplo de sua etnia.
Estas danças exibidas podem até ter um fundo de pesquisa embasado na cultura deles, seja no campo
de vivência entre eles (o que é raríssimo em se tratando de todos os povos
ciganos do mundo por conta do grande investimento financeiro e a demanda do
tempo para dominar todos os estilos) ou pelas duvidosas pesquisas na internet
onde muito se encontram nas “fake news” e as invencionices estilizadas para
alimentar o mercado deste nicho. Nenhum outro povo discrimina outros povos na
representação de suas danças quando o respeito lhes é conferido por não alterar
aquilo que não é seu ou mesmo inventar aquilo que aquele povo nunca fez em sua
trajetória histórica.
A dança será sempre estilizada com embasamento naquilo que
se tem acesso e nunca será fiel e representativa de qualquer cultura se não for feito exatamente como seus nativos a
fazem. Continuará a ser estilizada sem representar a cultura ali embasada.
A pensar, será que uma japonesa jamais sambará como uma brasileira?
Ela precisa nascer brasileira para sambar? Já é mais do que notório que
qualquer um pode dançar qualquer dança de outros países quando aprende e estuda
com os idôneos profissionais, quando estes existem, e trazem comprovadamente
“atestados de notório saber” (quando se consegue), ou similares, ou os devidos “reconhecimentos” de
seus nativos enveredando que as danças são sim de seu povo, mesmo que não tenha
nascido entre eles.
Nenhuma escola, que eu saiba, aprende as danças de outros
povos sob a tutela religiosa ou de pessoas que sequer vivenciaram, ainda que de
forma mediana, as mesmas danças que ensinam “artísticamente” falando adorando a
bandeira, cantando e/ou dançando (?) seu hino e adotando uma divindade que não
é exclusiva da etnia inteira. Até sobre o quesito religiosidade já falei no
artigo “Místicas na Dança” aqui no blog.
Parou pra pensar nisso?
Se os próprios nativos sequer se manifestam sobre este caso,
como confiar naquilo que o mercado e que nem a própria etnia vende? Títulos profissionais só servem para
as demandas trabalhistas. Mais vale o aval de um nativo do que tantos diplomas
sem reconhecimento das Secretarias de Cultura, Ministérios de Educação, ou seja
lá qual o órgão daquele povo ou país em questão, a reconhecê-los como
semelhantes e aptos a ensinarem tais danças ditas como daquele povo. Detalhe: qualquer nativo pode ser picareta com sua própria cultura!
À exemplo de uma dança de estilo ATS (American Tribal Style)
que gentilmente a colega e respeitadíssima Aline Muhana me deixou um link falando sobre esta dança nova no mercado. Ela
não é nascida em um povo, mas da fusão de passos de vários estilos folclóricos
onde a base está toda focada na Raks Sharki, aqui conhecida como Dança do
Ventre, uma outra dança de matriz étnica. ( https://docs.google.com/document/d/1FH6_hqD2mh5wmv_RULv_WZKGJ2P1PwRhRwrd-QHnwTY/edit?usp=drivesdk)
Comparando com a outra, há que se pensar que, mesmo não nascida em um povo, esta dança tem todo um fundamento que começa na sua base histórica, Raks Sharki, mas que evolui na fusão, na mescla e na liberdade no uso de músicas para suas coreografias.
Comparando com a outra, há que se pensar que, mesmo não nascida em um povo, esta dança tem todo um fundamento que começa na sua base histórica, Raks Sharki, mas que evolui na fusão, na mescla e na liberdade no uso de músicas para suas coreografias.
PENSE!!!
REFLITA!!!
Dança Artistica...onde? Todas as danças já são artísticas!
Dança cigana estilizada
Esmeralda - O Cordunda de Notre Dame
Daria para aprofundar
mais sim! A crítica é direcionada ao questionamento e à reflexão do uso
desnecessário deste termo se ela está embasada numa cultura viva, atuante e
existente em vários países com suas particularidades que bem define seus
diversos estilos e não comumente rotulada com um mesmo tipo de roupa e seus
similares para dançar qualquer música dita deste povo sem sequer entender o
que pensam, sentem e expressam sobre suas vidas, costumes e religiosidade que
são refletidas nas danças de cada país onde cada grupo vive, ainda.
Ainda confundem
estilização com fusão, com confusão e com qualquer outra coisa que não
represente aquele povo...salvo, se é que devo dizer, sua esteriotipação.
Por qual razão fazer
isso se não seria mais honesto apenas apresentar o que se sabe, o que se pode
sem inventar o que sequer representa em absolutamente nada um povo já tão
perseguido, mistificado, alvo de preconceitos no decorrer de sua história e
usado por oportunistas em todos os sentidos que envolve a vida?
Isso não ocorre em outras
danças de matriz étnica. Quem não é reconhecido pelo povo que a originou, é
simplesmente ignorado por todos. Só mesmo aqui no Brasil se tolera isso. Quero
ver quando os donos destas danças derem suas caras e exigirem o que é deles,
pois estão corroborando para tudo de negativo na sua massacrada história.
Não quero que pensem
como eu. Se pensar e refletir usando do bom senso, já será de bom tamanho.
Então, é justo?
Melhor chamar de Dança Temática então... fica a dica.