terça-feira, 4 de dezembro de 2018

Traje de Flamenca X Traje de Baile

Antes de iniciar a reflexão quero dizer que o figurino (traje) é um complemento que, aliado a iluminação, vai ajudar na compreensão daquilo que vai interpretar.  Hoje em dia usa-se qualquer roupa. Em particular, umas sequer trazem bom efeito em cena, mas isso é gosto do artista que, sem as devidas referêcias e bom senso, usa a bel prazer na maioria das vezes satisfazendo seu ego sem se importar com aquilo que será visto pelo público. Às vezes é isso mesmo que o artista quer, chocar. Artista, quer queira ou não, é formador de opinião.

Para aqueles que se preocupam com a composição do figurino para seu baile, provavelmente devem estar seguindo algumas destas dicas a seguir. Flamenco é uma arte democrática e, por suposto, qualquer forma física ou idade independe dos ditames do comércio. Sobre a cor e estamparia já escrevi outro artigo expondo o que é louvável pensar por conta do nosso mercado de tecidos disponível.

Quando se conhece bem o palo e sua origem regional já terá um bom veículo para inspirar como será seu traje. Fora isso, como já mencionei no início,  estão usando de tudo sem nenhum critério. Quando muito, a aparência espanholada.

Traje de nesgas

Traje de Flamenca são aquelas roupas “inspiradas" naquilo que se refere ao Flamenco e de tudo que se vê de forma estilizada. Normalmente usado em passarelas, em desfiles e por cantantes porque são apenas uma fantasia, seja ela tradicional, moderna ou contemporânea, porque não tem as movimentações da dança que, para quem pratica, sabe que exige liberdade de movimento. Para os homens se institui o tradicional terno sem a gravata. No lugar da gravata ("corbata" em espanhol) usa-se uma echarpe, lenço liso ou estampado que se conhece como “pañuelo" e pode ter vários  tamanhos e de diversos tecidos. Para as mulheres são  apenas três  bases para o vestido que pode ser “volantes de capa" (com babados a escolher tamanhos e quantidades de fileiras), “canastera" (com babados grandiosos e ligados uns aos outros por franzidos logo abaixo) e de “nesgas" (entre as costuras se coloca um triângulo na base com o tamanho desejado).

Modelos canasteros

No caso dos vestidos, costumam usar como base o vestido tubinho tradicional que dá, inclusive, o famoso formato sereia (ou “sirena" em espanhol). Este modelo é muito usado até hoje por vários estilistas nas atrizes durante a entrega do Oscar. Modelo que é justo da cintura seguindo a forma dos quadris e bumbum e acabando justo nos joelhos...por isso é chamado modelo sereia. Muito comum em  batas de cola, mas que só servem para cantoras de coplas e não para bailes. E este erro tem sido constante por aqui por conta da ignorância dos ditames para a dança.

Em vários artigos que escrevi sobre batas de cola, menciono a bailaora Inmaculada Ortega a quem sigo como estudante de flamenco e com quem me aconselho nos diversos tipos de batas de cola, que menciona poder bailar com qualquer bata e que sua modelagem, tipo de tecido, tamanho e quantidade de babados vão interferir no resultado de sua dança por conta do peso e da mobilidade no modelo escolhido para confecção.

Modelo sereia

Os Trajes de Baile, como diz o próprio nome, é  para dançar. Ou seja, possui modelagem diferenciada para a dança. As inspirações vêm do conhecimento histórico do palo a representar, da letra cantada ou mesmo inspirados nos Trajes de Flamenca.  "Inspirar" não significa "copiar", inclusive, a modelagem. Precisa de todos os devidos ajustes para a dança. Há que se usar do conhecimento da modelagem para adequar os decotes, mangas e cavas e de onde partirá a roda da saia, pois o modelo sereia só  servirá se for confeccionado em malhas com um bom teor de elastano haja vista que os movimentos de pernas são amplos e o detalhes de “não segurar" a saia para sapateado. E isso pode interferir no tipo de costura como Alfaiataria ou Malharia (também com artigo exposto neste blog). O único detalhe sobre o modelo sereia é  que ele pode ser ajustado, no mínimo, até o quadril e usar a medida do quadril para seguir até os joelhos. Além disso, muitos dos tecidos podem não servir para a dança. E mais, as roupas dos desfiles (os famosos Trajes de Flamenca) são criados PARA DESFILES e tem custo muito elevado por se tratarem de exclusividades, por usarem o método da alfaiataria e por servirem apenas em corpos como as modelos. O início da roda da saia pode começar pela cintura, metade da altura entre cintura e quadril, a partir do quadril, do meio da coxa ou mesmo a partir dos joelhos. Dependerá do que fará na sua dança...

Volantes de capa

Demais, pode-se usar as mesmas inspirações de saia citada no Traje de Flamenca. Um exemplo restante a mencionar e fora do padrão flamenco, mas que faz uma assinatura em quase todas as suas roupas, são as saias usadas pela bailaora Sara Baras que usa demasiada roda em seus vestidos lembrando muito as saias de Isadora Duncan, dançarina precursora da dança moderna. Além disso, não é qualquer tecido usado para estas saias... Neste caso, este tipo de saia acabou se tornando uma marca nas roupas usadas por ela e que tem característica movimentação usada em seus bailes.
Pañuelo tradicional comumente encontrado amarrado no pescoço de quem dança
Para os homens não existe tanta restrição. Ou estão totalmente adequados a modernidade ou usam o típico traje inspirado nos toureiros. Aquela calça de cintura alta e justa no corpo usado com tirantes (suspensórios), opcional um colete curto e, às vezes, um bolero simples. Todos eles seguindo a estética da alfaiataria. Torna-se visualmente luxuoso quando possui bordados típicos da Andaluzia.

Traje antigo de bailaor

Então é mesmo usar destes conhecimentos e do bom senso para compor seu figurino e não  cair no vexame do exagero, dos modismos passageiros ou da falta de conhecimentos caindo numa típica estilização espanhola.


Traje atual dos bailaores

E então, onde você se enquadra?
Na dúvida, consulte gente especializada no assunto. Vivemos um momento em que é difícil expor o que se pensa, pois tudo está polarizado demais. Ou você está à favor daquilo que te expõe ou será radicalmente contra. E com isso, muitas vezes te colocam como inimigo do momento. Isso é muito ruim quando novatos profissionais são apoiados por profissionais experientes apenas para manter seu fluxo de contingente nos eventos que fabricam durante o ciclo anual ou mesmo por obter alguma facilidade financeira em seus figurinos desmerecendo sim o profissionalismo daquele estilista ou confecção que, para não perder cliente, acaba cedendo ou "oferecendo" este tipo de vantagem.

A roupagem nas danças de matriz étnica, como o flamenco no caso, também faz parte do processo de aprendizado na composição final de seu trabalho. É a cultura de um povo que não é a sua. E entender e respeitar sua história é o mínimo a fazer para não cometer erros graves. Imagine-se na Espanha pedindo "aquele pente grande que coloca na cabeça e que coloca uma renda grande como véu". Ou ainda,
"quero um vestido de cigana espanhola com bolas grandes, um xale espanhol para dançar que não seja muito grande" ou "quero aquele leque grande". Garanto que, mesmo traduzido para o espanhol, não saberão muito o quê te oferecer por você não se referir com precisão a que dança se refere e o quê realmente precisa  para seu baile. Como lojista, vão te empurrar qualquer coisa espanhola para vender mesmo e ainda vão dizer que está lindo! Cansei de ver alunos trazerem vários artigos folclóricos achando que, por ser autêntico espanhol, que é para baile flamenco. E isso ainda acontece nos dias de hoje!

Xale espanhol (mantoncillo)
serve apenas para adorno

Mantón para baile flamenco

Pelos mesmos erros na falta do conhecimento da cultura de um povo é que muitos estrangeiros ainda acham que Buenos Aires é a nossa capital. Portanto, estude a cultura de sua dança e aprenda a  diferenciar Traje de Flamenca e Traje de Baile, acessórios e etc. Ou, no mínimo, respeite e consulte quem realmente conhece. Não é feio e nem vergonhoso assumir que não conhece aquilo que quer. Mas será estremamente ridículo se colocar como sapiente...principalmente diante de seus alunos...

Pense nisso.

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