terça-feira, 15 de novembro de 2016

Um Carioca no XXV Festival do Triângulo

Este ano me convidaram  para participar do Festival do Triângulo.  Há muitos anos estive nele como concorrente e havia observado situações que foram comuns a outros festivais que participei.

Desta vez fui como profissional ministrar uma Oficina de Zambra para um público específico e ainda resistente por conta do tema controverso de sua origem histórica.

Conheci alguns nomes da história da dança no país pessoalmente, suas posturas e seus pensamentos (os que pude perceber e os que foram mostrados) sobre a cena atual em Uberlândia e de como ocorre em outros locais no país.

Óbvio que aproveitei para ver a mostra amadora adulta nos dias 13 e 14. Quase em sua totalidade os grupos são da região da cidade salvo 3 grupos, se não me engano, que são de cidades próximas.

Problemas à parte com o retorno da direção ao grupo original do Festival depois de cinco anos, não sei dizer se é o mercado da região, o desinteresse ou desconhecimento de outras linguagens de dança das quais senti falta neste festival.

De um modo geral, notei que em quase sua totalidade o que me preocupa não são os queridos alunos que deram sua alma para estar em cena, mas sim a capacidade de ensinar de seus professores, a falta de conhecimentos didáticos para ministrar aulas, para coreografar e para compor um figurino. Este último parece perpetuar pelos anos que estou na cena da dança.

A dança possui algo mais que aquilo que se ensina dentro das salas de aula. O figurino pode ajudar ou destruir uma obra assim como a iluminação. Sobre figurino, ainda se cometem os mesmos erros...uma costureira, com todo o respeito que merece a profissão, não é estilista ou figurinista. Já fiz menção sobre isso em outra matéria no blog. Se deve conhecer, ao menos, tudo que envolve uma cena de dança seja ele qual for o espaço. Falo daqueles que não aparecem: os contra-regras, iluminadores, sonoplastas e etc. Sem eles também não existimos.

Um coreógrafo não precisa saber costurar ou mesmo sequer conhecer tecidos, mas seria responsável entregar sua idéia ao arquiteto da roupa, aquele que a bola, cria e passa ao real o lúdico da roupagem de sua idéia que é o figurinista,  que a conceberá de acordo com os parâmetros fornecidos para depois da aprovação do coreógrafo encaminhar à produção inspecionada do mesmo.

Me preocupa muito que estamos tendo uma onda de duvidosos profissionais os quais me leva a pensar na qualidade das formações incompletas ou autodidatas dos mesmos que, em vários segmentos, costumam se acharem aptos a professar depois de algum tempo cursando um curso seja aonde for o espaço.

Falta método, falta técnica específica, falta conhecimento histórico e a razão da existência de sua escolhida dança e falta, acima de tudo, a consciência ao lidar com o corpo alheio e com a postura política diante da cena trabalhista. Isso favorece aos lobos em pele de cordeiro dos donos de "escolas" de dança que nem são reconhecidas pela Secretaria de Cultura de seu município com os méritos que leva seu nome fantasia. E favorece o comércio grosseiro das academias que se preocupam apenas com o capital de giro que estes "profissionais" produzidos por um photoshop oferecem na duvidosa qualidade de seu produto.

De tudo que me fez pensar, está difícil encontrar maduras ou iniciantes cabeças pensantes em dança como um todo, como coletivo artístico desta arte e não aquele coletivo pessoal da vaidade e do ego imperante nos últimos anos nos diversos segmentos que tem a dança.

E vou adotar uma frase do resumo da Roda de Conversa com o tema do festival ao qual amei e me inspirei para continuar com a dança e com o ensino do pensamento e da reflexão dela durante minhas aulas.

"Precisamos pensar na contemporaneidade da dança."

A luta por melhorias na qualidade profissional depende de suporte legal também. Vemos, em ciclos irregulares de nossa história, talentosos brasileiros indo mundo afora percorrer de forma digna e responsável o verdadeiro caminho de um profissional de dança. Detalhe que não desconsidero as intempéries naturais de qualquer profissão, mas se no óbvio não houver o devido respeito entre as diversas linguagens que a dança tem, de nada adiantará pensar no todo. Esta é a minha ótica.

Como carioca em Uberlândia, apenas vi que o problema não é somente em meu estado. Está disseminado pelo vasto, porém ironicamente restrito, caminhos da dança em nosso país.

Só tenho a agradecer a Secretaria de Cultura, a Prefeitura de Uberlândia e a todas as pessoas que compõem a organização por me proporcionarem tamanha honra como profissional, pela confiança indicada por uma colega de trabalho e também pesquisadora, Veruska-Kelly, e por viver algo novo que já havia enterrado em meu ser... a esperança no futuro da dança em meu país. Reconheço minha falha ao não memorizar os nomes de todos com quem estive mas poderemos nos falar depois que o evento dispuzer nossos contatos e, por esta razão, generalizo minhas palavras.

Espero que entendam minhas críticas que não são para desarmonizar, mas despertar e construir juntos!
Afinal de contas ter mais de 30 anos em dança não é ter apenas 30 dias... e tenho muitas vivências!

Espero poder voltar futuramente e também encontrar em outros lugares gente assim, que verdadeiramente AMA a dança como um todo.

Um comentário:

  1. Ricardo Samel, suas percepções são compatíveis com alguns sentimentos que eu e a amiga Mari tivemos ontem na apresentação amadora. Falo de sentimento pois trata-se de uma percepção e não temos uma fagulha dos conhecimentos que você tem. Suas considerações corroboram nossos sentimentos. Percebermos, especialmente na dança "do ventre" quase que uma banalização ou pouco caso. Não havia uma coerência coreográfica e o desejo do expectador era que acabasse logo. Os figurinos em suas cores neon também nos soaram pouco fidedignos a essa dança. Isso mostra que um professor de dança preciso dominar as raízes históricas e o processo de contemporaneidade da dança para não inventar coisas sem nexo. Não entendi porque a comissão aprovou da mesma escola tantas coreografias dessa modalidade. Concordo que os alunos sentem se felizes por apresentar, mas talvez não tenham a compreensão de que não estão sendo orientadados adequadamente. Esperamos te-lo novamente em Uberlândia!

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