Me arrepiava ouvir os sapateados daquela mulher e de seu grupo ensaiando para mais um show. Mabel Martin era uma mulher muito exigente com a dança, com seus alunos e nos tratos profissionais. Sempre foi tida por muitos como carrancuda e grossa, mas hoje a vejo como uma mulher explosivamente latina, "muy flamenca" e com as emoções à flor da pele...como pede o Flamenco e muito sincera em tudo que pensava.
Adentrei seu curso e vi como ela tinha carinho com as aulas, tinha método, tinha disciplina. Ali comecei meu derradeiro destino com a dança. Pesava meus 54 quilos em 1,76m e sem nenhum aprendizado prévio de dança.
Nunca fui tratado com as grosserias que diziam que ela fazia. Nunca fui chamado a atenção salvo os erros dos exercícios e sempre recebi as devidas orientações com carinho.
Ainda me lembro bem das aulas de castanholas dela. Eu tinha a minha "caixotinho de feira" que ela muito docemente me dizia: "filho, esta não serve para a dança porque é para enfeitar. Te ensinarei a escolher uma castanhola decente para estudar". Dito e feito. Juntei meu dinheiro e comprei uma Lucero Tena, muito em moda e considerada uma das melhores na época.
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"Lagarteranos" |
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Chegada ao Brasil em 1963 |
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Alberto Turina, Pepe de Córdoba, Mabel Martin e Carmen de Ronda, SP Los Romeros Primeira Formação |
Ainda me lembro bem de alguns artistas em sua primeira formação como Victoria Núñez, Getúlio
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2a Formação do Los Romeros no RJ |
Do trabalho como músico, Alberto deixou crias. Alberto Magariños "El Maga", Mara Lúcia Ribeiro, Fábio Nin e Sérgio Otero. Estes são os que tenho certeza.
Depois da rua Bambina, foi para a Casa D'España do RJ e lá realmente conseguiu, a duras penas, solidificar sua Escuela Española de Danzas. Ali montou um atelier de costura onde ela mesma fazia os figurinos financiados pelo casal e que entravam para o acervo do grupo.
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parte do Ballet da Casa D'Espanha do RJ |
De seus filhos, apenas Andrea segue na dança, pois a atual gestão não consegue conservar na prática os trabalhos do casal divisor de águas na dança espanhola carioca a não ser pelos modismos do flamenco atual; o que se pode lamentar quando o assunto é herança e continuidade do trabalho que eles implantaram no Rio de Janeiro. Mas achei muito humilde escutar que "podemos não saber o que é o Flamenco, mas foi com Mabel e Alberto e vendo shows que descobrimos ter a certeza daquilo que não é Flamenco". Adriana Araújo, nora do casal e esposa do filho Marcelo que me confessou a dificuldade de estabilizar e manter o trabalho deles por conta dos modismos da dança flamenca nos dias de hoje.
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Andrea Ortega |
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Mabel e Alberto, Carmen Dotto, Marisa Vásquez, Calpurnia, Robinson Gambarra, Lúcia Caruso e Lúcia. Bastidores do filme "Manoushe", 1992. |
Com a partida de Mabel Martin e seu esposo bailarino e guitarrista Alberto Turina, somente aqueles que levam seus ensinamentos conseguirão dar o devido mérito ao trabalho árduo e duro que eles deixaram. Poucos têm esta escola e, mesmo que seguindo a modernidade que o flamenco tem hoje, nenhum deles esqueceu a escola que aprendeu.
Eu não cheguei a participar do grupo por conta de ter escolhido apenas o Flamenco. Para o casal era de fundamental importância que todos aprendessem a escola toda e não somente uma delas como eu escolhi. E esta é outra história que já contei.
Mas deixar esta memória póstuma com o meu olhar em particular sobre Mabel Martin foi a maneira carinhosa que encontrei para deixar seu nome registrado na memória da dança espanhola no Rio de Janeiro.
Ao menos na minha história com o Flamenco seu nome estará sempre presente e tenho orgulho disso. Talvez sem a presença dela e de Alberto em minha vida eu não teria um bom filtro para escolher os caminhos com o Flamenco e danças afins nestes anos todos que me dedico.
As fotos me foram cedidas por alguns amigos e por Lívia Bueno, Andrea Ortega e Marcelo, filhos do casal. Não dá para colocar todas as fotos. Escolhi as que me tocaram e preenchem bem este artigo. Minha eterna gratidão por compartilharem comigo suas fotos e por acreditarem em mim. Aos amigos e colegas contribuintes, gratidão por sua generosidade: Victoria Núñez, Lívia Bianco, Andrea Ortega, Robinson Gambarra, Lúcia Caruso e Giselle Ferreira e Marcelo que hoje dirige a Escuela de Danzas na Casa D'Espanha do RJ.
Não posso deixar de mencionar que por duas vezes, em 1994 e em 2004, Mabel recebeu do Rei da Espanha condecorações pelo seu trabalho em prol da cultura espanhola.
Alberto Turina
e
Mabel Martín
IN MEMORIAM
E minha eterna gratidão pelo que vocês deixaram plantados na história da Dança Espanhola no Rio de Janeiro.